terça-feira, 4 de novembro de 2008

Estranhezas

Hoje sonhei com um caixão todo florido, quem morria era nossa senhora, a da pequena morte (obrigada pelo livro que nao li ainda)Ela vinha de branco e dourado na cabeça, ela sorria pelo gozo da própria redenção. E quem não? Me disseram que a gente tem que saber sangrar. Eu concordo com isso. Eu sonhei tambem que perto de mim uma roda pedia para funcionar, meu deus! Quanto tempo que nao sonho Salvador Dali, Bunuel. A roda dizia que precisaria de mais gente pra botar ela pra rodar, sozinha ela nao daria conta, nem só comigo. fico bem lembrando de um filme que eu assisti. Eu preciso de pára raios, de redes de proteção, por todos os lados algo que me carregue.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Haikai

me passou derrepente
no céu da boca
uma estrela cadente
Itamar.


Porque a coisa mais dificil de se fazer é um haikai, e o Ita sabe.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O que sobra é um borrão, numa tela apagada.

Naquela amanhã acordei toda doída. Um sono que me espancou e eu não sentia meus pés. Acordei e fiquei parada olhando para o teto. Poeira para todo lado. Traças comiam meus livros, olhavam pra mim e davam de ombros. As pessoas grandes me viam de fora da casa e tentavam me avisar. Sem exceção. Tinham boas intenções. E eu uma carne amorfa em cima da cama. E as poeiras dançando, aquele livro do Lautrec com as páginas coladas em inglês, meus olhos embaçados em frente às letrinhas, sensação de náusea. O livro e as traças. As cadeiras da mesa de jantar encarando o quadro que eu mandei emoldurar, do cartaz daquele filme, bem antigo. A cama tão grande, e umas manchas nas fronhas, amareladas. Quando ouvi o primeiro ruído, fingi não perceber. O berço que esperou o filho que não veio, balançava sozinho. O armário com as caixas verdes, uma acidez estranha as consumia, eu já não lembrava de nada que coloquei ali, exceto duas coisas: as chaves do seu apartamento e um girassol pintado na madeira. A casa era tão grande. A cama, a janela sem as cortinas, que havia prometido bordar e nunca coloquei de volta no lugar delas, estavam lá, dentro do armário, emboladas. E todos os remedinhos manipulados, em vidrinhos laranja. Todos lá. E levantei da cama, o rangido me assustou, fiquei parada esperando passar. Consegui colocar os pés pra fora do colchão. Crec Crec Crec. Começou pela parede, depois os armários, as estantes, notei e não vi mais nenhuma traça nos livros. Espertas as malditas, fugiram todas. Não pude salvar nada. Eu já não era nada a não ser uma parte dessa colagem que chamam de Arte. Nem aquele souvenir que eu ganhei. Nada. Corri, e o chão se abriu. Corri tanto que nem percebi. E as pessoas todas de gravata sensatas, felizes e bem amadas lá de fora, gritando por mim, sem saber meu nome, gritando Corra rápido. Quando olhei para trás. não vi mais nada. Já não era casa, já não era nada. Eu não era nada, apenas esse amontoado de coisas que já não existe. Tudo terra abaixo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Passeio no bosque


o canivete na mão não deixa
marcas no tronco da goiabeira

cicatrizes não se transferem



Sina


o amor que não dá certo sempre está por perto


Ambos de Cacaso.

Obra: sem título. (Vol.2)

“Her capacities go out, one by one... And there’s no night, no stars, only a cellar from which she can never walk... and which nobody else can stay. She's given medicines which make her ill, but would stop her dying. For a little while... They’re scared. I'm scared.” To the Wedding by John Berger.

E teve aquele dia em que eu enchi o saco. Revirei tanto as caixas do meu armário, dei voltas nauseantes pela minha cabeça mofada, cheia de historinhas vis construídas sempre para cutucar a ferida de alguém que nunca vem ao caso. Nunca mesmo. Fantasio que eles vão ler tudo, e vão sacar e remediar perdão. É muita pretensão mesmo. Putz. Eu escrevo para satisfazer essa ególatra, megalomaníaca e pedante dentro da minha cabeça. Ela é um monstro dentro da minha cabeça. Uma massa disforme, com unha e cabelo. E cria esse horror-show nostálgico que não serve para nada, apenas para alimentar mais e mais essa massinha encrespada e suja. E acha que é ficção e sonha o que tiver que vir, e romantiza esse ato para quem quiser ler. E atravessa os fios do holofote com um bisturi na mão e corta parte por parte desse cérebro duro, inócuo, e deixa à mostra. E fantasia que eles vão continuar lendo e sacando tudo. “Olha esse aqui, eu fiz para você, seu puto”. Que patético! Você ainda não percebeu que ninguém se importa? Nobody just don´t give a damn! Vem um serzinho baixinho e magrinho do meu lado, esse que fica de fora e não dentro, quase sem vida, me dizer essas coisas. “Voe, voe, vá e cumpra nossa missão” Me perdi. Qual mesmo? Qual missão? E eu tentei escrever tanto pra alcançar a pluma, sim aquela mesma indecente, que não existe. Não tem pluma nenhuma. Que criação mais fajuta, cansei dessas invenções, dessas palavras repetidas, pálidas, até desse adjetivo que antes eu achava, bem... eu achava. Fantasio que todos vão ler, e vão sacar tudo. A massa disforme começa a mexer aqui dentro, essa insatisfeita, egocêntrica, reluta em dizer o que mesmo? “Ninguém se interessa, ninguém quer conhecer de fato as dores, os afazeres diários, ninguém quer saber sobre o seu dia, o verme quer apenas o mistério da vida, o corpo delineado na próxima esquina.” Esses putos. Ninguém vai ler. E o que eu faço com esse frio aveludado que eu sinto? “Engole com água e aspirina.”

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Putz. Queria comer meus dedos para não ter mais desculpas. Quero apagar tudo. Eu bato e ninguém me ouve. Estou presa em algum fosso. Alguém criou muito mal criado esse fosso, falta o resto das pedras. E esse cheiro idiota de mofo. Essa minha cabeça embolorada, que palavrinha mais cretina essa. Cheia de mofo, traça, passado sem o vestido da Adélia. Eu caindo em algum lugar. Vontade de assar a bunda pra ver se explode. Pra ver se eu flutuo. Ressinto aquelas revistas que eu lia, e pensava que eu ia ter todos aqueles cremes e aquele troço de colocar no olho, curvex, isso, curvex. Pau no cu de curvex. E ter 20 e achar que o primeiro orgasmo foi o melhor da vida, aquele no bidê de casa, no chuveirinho do bidê aos 13. Ressinto essa porcaria toda. Que um dia eu fiz meu quintal de motel com ele, a gente entrou debaixo das cobertas e a gente comeu tanto chocolate, foundue. Isso. Passado de merda. Serve para nada. Serve nem para lembrar. Ressinto o vestido, dona Adélia. Me desculpe mas vestido eu não tenho. Tenho nada. Nao sou nada, e dentro de mim, não existe nome para isso. A pluma, aquela que persegue, tá lá em cima. E eu aqui embaixo.Essa água perdida. Nojo. E esse fosso, essa luzinha que acende apaga acende apaga. Apagou de vez.


drop. Sangue ralo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Jambolada Primeiro dia

Já que Terezinha viajou, fico aqui falando besteiras. Hj tô boa pra arregaçar as mangas, bater forte no balcao e pedir uma vodka gelada, vodka nao,VÓDEGA para os intimistas. Com bastante gelo.
Hj começa a Jambolada, festival de musica independente de Uberlandia. Vou lá, e já que nao tenho muito o que fazer, vou dar o meu parecer aqui depois.


Rafa modo "um copo com gelo e dois dedos d´agua" on.

Da lista "coisas para se fazer sozinha e escondido"

Fui assistir MAMA MIA.


Sim eu gosto de ABBA, pronto falei!


Quem nao sabe pesquisa aqui. http://www.mammamiaofilme.com.br/

E foi ótimo.

Terezinha está de férias.

Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marrakech

Mexe
Qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa doida
Dentro mexe
Não se avexe não
Baião de dois
Deixe de manha, 'xe de manha, pois
Sem essa aranha! Sem essa aranha!
Sem essa, aranha!
Nem a sanha arranha o carro
Nem o sarro aranha a Espanha
Meça: Tamanha!
Meça: Tamanha!

Esse papo seu já tá de manhã.
Berro pelo aterro
Pelo desterro
Berro por seu berro
Pelo seu erro
Quero que você ganhe
Que você me apanhe.
Sou o seu bezerro
Gritando mamãe.
Esse papo meu tá qualquer
coisa
E você tá pra lá de Teerã

*em outros ares*

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Cecilia com acento por favor.

Ceci me chamou no canto, e pediu pra eu entrar no quarto porque ela tinha feito uma apresentacao pra mim. Ela e a tia dela, a Amanda. Entao eu entrei no quarto como quem entra num teatro, teatrinhos de infancia sao tao legais. Eu montava varios, cobrava ingresso, ajeitava os lugares para os pais sentarem, nosso primeiro publico dessa pe;a que se chama vida (ja expliquei meu teclado ta desconfigurado, e eu nao vou parar de escrever pela falta da cedilha ou do acento, foda-se)Agora era eu que sentava e esperava pelo primeiro ato de Ceci. De repente...

This is the thriller, thriller night!

sim, ela ja pode ir pro goma comigo, eh isso entao??
quase chorei. Ela fez a coreografia, com todos os passinhos.

Essa eh pra vc tbm Maira, Cecilinha arrasando na pista.

Leitura diaria

Escrever sobre o nada. Quando a minha dignidade me falta, quanto eu nao tenho acentos proprios e as palavras perdem a credibilidade, que falta faz um ponto de interroga;ao, olha so sem acento sem cedilha, deixa eu procurar aqui. Pronto achei!! Esse pelo menos tem. A virtude da ausencia e entre isso o ponto. Maira, com acento no i, deixo claro isso, pediu pra eu escrever, que fosse coisa pouca, gelatina, essa foi a palavra, babe! achei tao bonitinho, gelatina. Seu nome aqui nao tem acento, uma pena. Seu nome aqui me faz falta, preciso usar palavras certas agora, as que nao precisam de acento ou cedilha ou ou... pra dizer pra ela, que eu ando chorando uma meia dor, a dor de nao poder estar presente, uma ausencia que se transforma em leitura diara, falhei. Quantos acentos me separam. Nos separam. Eu queria tanto estar do seu lado agora, para um cranberries, um choro, sem vela. Com nos com acento na varanda, e varios eteceteras que sao so nossos. Tao nossos, e Kath Bloom no talo, come here babe. Viena atravessa de novo meu caminho.

uma carta imaginaria com caneta bic entregue no recreio do messias, em 1998

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Por Maíra Selva

Só podem ser mesmo nossos vocativos na boca do sapo!! Que droga! Queria meus olhos em lsd agora, pra poder ver uma grama mais verde, que nao a do vizinho,a nossa.
Coqueiros - The real thing
Rafaella, Rafaella (vocativos tipo Branca...), eu vou te linchar, Rafaella. Eu quero jogar pedra na Geni! Eu quero chutar (com T) o pau e o pé. Quero grana, quero grana pra ficar brincando de blog com você, ficar comendo pão-de-queijo com Heineken segunda-feira, três da tarde, pra olhar a grama, pisar descalça e esperar dar aqueles mosquitinhos de Uberlândia da hora de ir pra dentro. É só o que eu quero, ser eu e ser todas nós. Meu deus... Já comprei uns móveis de jardim, de madeira fosca, tratada, é verdade, mas sem aquele verniz de Vó Rosa nos bancos doídos nas costas da visita só pra eu brincar de rir do povo que vai comer a feijoada beneficente e comentar e escrever e te convidar pro nosso ócio de Carlton e vontade de abrir uma lata de atum. Aaaaaiii - de doer a garganta mesmo... Quero ouvir você falar da coleção nova da Neon, ou me explicar, sem olhar os créditos das fotos, quem está imitando quem, e aí, eu penso, quem me impede? Que diabo? Que forças ocultas? Nome na boca do sapo? Mandinga?
Vou ali, e nem é pra pingar meu alucinógeno no olho, é pra terminar um parecer de advogada de scarpin mesmo...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O rio que passa corrido, as vozes que vibram no ar.

E foi num passeio pelas ruas escassas de fumaça que escutou pela primeira vez aquela
Voz fininha lá no fundo. Dizia Terezinha, o amor chega estático paira por cima das coisas e assim vai, vai... pluminha indecente fumaça-como diria Manuel Bandeira - de vento frio de inverno daqueles que sai de dentro da boca, partículas mortas, velhas. Vai pra longe voz estridente, me deixa aqui com os dedos pregados no peito, peito que pula em compassos do rémi fá. Me deixa nessa melodia que eu sempre construo, que ele constrói por mim, então tá. Falo então agora do culpado por essa confusão que habita uns poros do corpo que agora não é meu, é dele. Ele nunca viu nada do Fellini, nunca parou acordado praquela tela P&B e fontana de trevi. Ele também não me viu chorar tanto com je ne regrette de rien. Então Voz, vai vou te chamar assim, Voz!. Varridos todos os amores (por debaixo do tapete, gosto de concluir assim, é tão desprezível, mas ao mesmo tempo tão engraçadinho) vou começar do zero? Então como li há muito tempo é o amor o contrário da vida e não a morte. Será? Ah Voz, me leva pra onde você fala, porque nem essa rua em que ninguém quase passa já me esconde mais. Se ele tivesse útero eu entrava pra dentro dele e ficava por lá. E escutava quentinha só quando ele cantasse hoppipolla pra mim, cantasse não, balbuciasse com a boca. E aí ele conversaria comigo e diria que me amaria muito e pra sempre. E que fazíamos parte da mesma carne, e os nossos sangues misturados, e um cordão umbilical bem forte e resistente nos unindo. Sou criança perto dele então. E ele é meu pai, minha mãe, e sai para lá Freud, você não cabe aqui. Vai se revirar em outro lugar. Ele me cuida desde a primeira vez que eu pedi então. Ele me dá o dicionário para decorar, o alimento pra eu comer, até que um dia eu tenho que ir porque já fiquei grande. Ah o amor. Esse bichinho da seda egoísta que me machuca inteira. Ah Voz! Não me deixe perdida como estou agora com esse regurgitar todo. Mas Terezinha descansa um pouco. Não pense tanto. Vai para casa agora, se vista com aquela camisola sua, preferida que eu sei, e durma, já não está na hora mais para devaneios.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Mais uma da Terezinha.

Buraco de grafite
O personagem não satisfez, a trama sempre passava sensação de deja vu e arrepio. Como uma música ruim que nos pega desapercebidos. E me disseram que eu devia bater em outras teclas, tecer outras fantasias, cumprir com o papel da criação decente, cordata e simples. Pensei em ser passageira de outro trem, pensei em não entrar na mesma sala de cinema, em não ir à mesma locadora. Tentei desviar do meu caminho, ver fotos de paisagem, procurei em tudo. Andei por cima, de cabeça erguida, prendendo em cada canto por onde passava bilhetes que me avisassem algo. Só que todos estão em branco. Tentei respirar, tentei pegar essa poesia que me saía das narinas. Que ilusão! Tentei chorar também, aos soluços. E o que consegui foi um buraco de grafite no papel. Mas um dia, minhas mãos compensam o que me falta e eu consigo. E um dia eu mostro ao que vim. Nem que seja para ver em um ponto, milhares de ocasiões. Nem que seja parar de recuar toda vez que me batem à porta. Nem que seja, parar de sentir medo de terminar essa poesia que sempre começamos. Nem que seja para lhe entregar meus braços, oferecer pipoca e lhe fazer companhia. Nem que seja o silêncio de penas cansadas. Por enquanto, em mim, guardados, todos os bilhetes, anotações, inícios e fins. Mas um dia, ah um dia! Eu subo na escada e acendo a luz da prosa.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pequenos prazeres Rafaella Biasi

Adoro o barulhinho do teclado quando estou digitando. Tão gostosinho,me faz querer digitar mais, mais que isso só indo na bicota e deixando aquele chocolate quente caseiro esfriar em cima do sorvete de flocos. Uma delícia.


Ah, gosto de te ver dormir também. Dá medo mas eu gosto. Me sinto vulnerável quando faço isso, tão clichê. Mas eu sou uma pessoa, assim... mamao com açucar. Pimenta só para os olhos dos outros, refresco. Para os meus... eu ardo.

sábado, 16 de agosto de 2008

Para você

De volta a Viena

Talvez aqueles slides na minha mente possam me manter viva, talvez a distância entre a ficção e a realidade seja a velocidade que a câmera capta a luz. Talvez eu seja aquela a esperar pelo filme da própria existência, numa cama quentinha, com aparelhos para me ajudar. Por enquanto, eu volto a Viena. A medida dos meus dezessete. Namorado cabeludo me esperando no portão, um foundue no gramado de casa, um adeus amargo, um não, dois, três. Eddie Vedder tocando violão na MTV. Sol e vinte quarteirões até chegar em casa...e carta cheirando a “Anais Anais”. A medida dos anos 90, devidamente plagiados de uma mente perigosa. Uma não. Duas. Cenários em movimento como uma animação antiga. Fita VHS, gravar as melhores da Itatiaia, esperar pelo próximo trem. E nós, esse quadro pop com trilha duvidosa e um quê de Almodóvar . Capas de vinil jogadas pela casa _internacional de novelas_, gosto de Pepsi-Cola e She´s a maniac.

E entre uma coisa e outra, Viena. Em 1997.

beijo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Veraneio madrileño.

E teve aqueles dias em que eu fiquei trocando cartão postal com um amigo que morava na Europa.

Todo dia era uma surpresinha chula de homem que não sabe lidar com o coração que tem pendurado no peito manco de virtudes boêmias. Era tanta boa intenção que ele tinha, pobrezinho. Mudou-se pra Europa pra aprender a língua, levou mulher, bumbo de bateria e o sangue latino. E foi. A história que tem seus meios nunca chega a justificar seu fim por tanto, apertamos o FF do controle remoto. Vrrrruuum.

Enfim, Madri. Como ele mesmo disse “a crônica do seu primeiro veraneio madrileno” Me senti tão chique agora, um pouco agressiva e cheirando a rosa vermelha no cabelo, Ah!Eu sempre acho que tô incorporando mesmo o personagem, antes assim. Que desça o tal espírito madrileno então.


Rosana adora tomar Martini com suco de manga quando acorda antes do trabalho, pendura no varal a esquizofrenia da noite anterior. Filha adotada, adolescente rebelde, 3 tentativas de suicídio, filha de 11 anos, 3 casamentos, 3 divórcios, 2 depressões profundas, começa a se relacionar com alguém e some do nada, se diz doida de tanto as pessoas dizerem que ela é doida, todos dizem que ela é doida, sai de pijama pra comprar coca cola. Dorme na cama dele, ele oferece vinho ela toma calmante com o tal Martini e é isso que você precisa saber.

Hoje ele vai ter com ela mais uma noite de pecado como ele gosta de dizer para mim nos cartões que ele manda, diz ele que o segredo é a oração quando acorda. Coisa de europeu vai ver. Não entendo muito dessas coisas de pecado a noite remissão de manhã. Enfim. Rosana às vezes não volta, às vezes não vai trabalhar, às vezes Rosana só existe nesses pequenos momentos em que o coração dele se abre do avesso e abarca Rosana. Como já disse,pobrezinho!Homem de coração que atravessa o oceano, homem assim não deve ter a cabeça muito boa, imagino. Mas ele fotografa Madrid não é com a cabeça. Ele também não compõe aquelas notas com a cabeça, então vai ver também que está tudo certo. E Rosana! Ah Rosana! Preenche essa fúria aí, essa fúria de querer ser pequeno, de querer ser um ponto no oceano que ele tem. Preenche a sua volúpia na bondade desse coração, só um pouquinho. Eu acho que o coração dele nem sangra mais, deve ser auto suficiente para a paixão. Então Rosana, vê se alfineta um pouco essa massa grande e vermelha aí. Compra vinho pra ele, compra o queijo que ele gosta, faz cabana com os lençóis que ele tem na cama, aquela q ele fazia quando era pequeno com as irmãs. Cuida dele um pouco, alfineta de novo, e se você for, não se esqueça, não deve sangrar mais. Só esvai como fumaça do cigarro –coça a garganta- madrileño.



Até o próximo veraneio.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Contra todas as expectativas

Principalmente as da Jessie Block que nao suporta ela. Mas hoje a Rita falou que lembrou de mim quando leu, aí eu li e desmanchei.


Por Não Estarem Distraídos
de Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.
No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Nenhuma saída is safe enough

(“Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta.”) — frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodín, em 1886.
Eu voltava para casa, voltava tão suja de memórias, dias e outras línguas que me divertiram, shots de tequila pernas tortas e hotel califórnia na jukebox do Motel Inn, cama dividida, banheiro dividido, coca cola com baunilha. Eu voltava outra. Eu fumava demais na sua frente e você reparava. Eu fazia charme botando banca de americaninha que não lembrava as palavras certas para você escutar, te falava que eu escutava elas lá no fundo em inglês, tudo charme. Eu parava na sua frente e você queria abraçar, eu sei porque eu via escrito na sua camiseta, com várias setas indicando fosse que você queria. Mas você não mostrava nada, você dava de ombros e manchava sua boca vermelha e cheia de carne de fruta madura em outras línguas que não a minha, outras maças de outros rostos. Eu voltava com os ouvidos doendo, garganta machucada, eu voltava bamba. Levei tanto vento no rosto, tanto blues grudado na saia, nos dedos, tanto samba importado. Eu voltei com ares de Carmem Miranda. E isso babe, você simplesmente não suportava. Você piscava os olhos, naquele desdenho manhoso e dizia “não sei falar inglês”. E não era só o que você já não sabia. Você já não sentia meu perfume, você dizia que eu tinha comprado outro, eu dizia que sim, mudei. Trouxe nesse aqui, um Gucci , cara de mulher que não tem a cara mais lavada a noite, só de rímel e blush. Você notava meus passos mudados, aquele sapato boneca verde que você me deu de presente, que eu adorava, eu joguei fora. E você não reconhecia mais nada em mim que combinasse com você. Minto. Havia uma coisa que você reconheceu por todo o firmamento, você reconheceu que não me cabia mais do seu lado. E não adiantava cantar no seu ouvido “Eu posso lá ficar americanizada eu que nasci com o samba e vivo no sereno topando a noite inteira a velha batucada nas rodas de malandro minhas preferidas eu digo mesmo eu te amo e nunca I love you” bem baixinho do jeito que fazia você rir, mas você não ria. Eu já nao tinha mais graça, eu ria a toa, feito boba, eu nao tinha mais graça para você. Então eu voltava para casa e abria meu armário, colocava dentro das caixinhas decoradas com a Marilyn do Andy Wharol todas as badulaqueiras que comprei na viagem, toda a poeira de cada pedaço do mapa que me fez mudar tanto, e sair tão corrida da sua vida. Saí olhando para trás como eu sempre fiz quando eu despedia do outro lado da sua rua. Eu tinha mudado e você mesmo sem querer prestou tanta atençao em mim que se esqueceu de mudar também, e isso te jogou para fora das memórias bobas que a gente tinha, aquelas do sofá da casa da sua mãe e cartas alfinetadas no peito. Descobri tarde que você tinha mudado também e pude me perdoar. Descobri que você pegou aquele avião com o assento vazio do seu lado, imaginando que fosse eu do seu lado a te passar o travesseiro molinho e pequeno e voce percebeu que havia mudado, olhou para longe, no rumo do céu, piscou os olhos, piscou nao, deve ter fechado por alguns segundos, se ainda nao me falha essa memória, e suspirou. Era a sua vez de se sujar.


Boa viagem.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Mordidas na ponta da língua

Histórinha pra mocinha dormir porque ja está muito cansada pra escutar.


Namorado despede no portão. As mãos por entre as frestas, alisando o rosto e depois as flores do jardim. Barulho de chave da porta do apartamento e meia hora de mordidinhas na ponta da língua. Ela tem ciumes quando você não está. Ela fala ao telefone roendo as unhas. Sabe se lá o que você está fazendo enquanto rabisca os post its ao conversar com ela. Que rabisco aquele post it merece? E ela ainda limpa. Sem arranhões de caneta bic. E porque seu travesseiro merece um afago com seus dedos ou seus pés? Se quando ela deita você olha esquisitinho,como se quisesse dizer "vem para o meu mundo, mas vem pisando em ovos, porque tem bastante coisa aqui que não é sua" Mas ela sabe, travesseiros pegam estradas com você, dormem aonde você estiver. E ela volta pra casa com todas aquelas almofadinhas empoeiradas estribuchadas em cima da cama de "viúva" como diz a mãe dela. E não adianta a sua mão no peito dela, ou mordidas de viés na coxa. Quando o vestido abaixa, sua mão vai ter com o cigarro, aquele tão displicente no canto da boca. Tragadas tão lentas, suspiros. E ela já está longe, longe de suas vistas, lembrando de toda a cena. O rock que ela não conhece, a cerveja barata que ela não toma, o despertador que te acorda todo dia, personagens vis de uma história de 24 horas em que ela não pertence. A segunda feira que não é dela. O sabonete que escapole por suas mãos,a agua do seu corpo a escorrer pelo ralo há quilometros de distancia dela. Sem falar em milhares de xícaras de café, o quadro da parede da sala, todos te vêem vinte e quatro horas por dia.
Não adianta falar que é promessa, porque a sua estrada é demasiado longe, e ela vai esperar sempre. Porque é isso que ela sempre fez. Ela espera pelo dia que os seus travesseiros vão expulsar aquelas almofadinhas pra longe, tadinhas. Ela espera por jogar aquele despertador longe, porque vai ser as mãos dela a te acordar toda manha. E todos esses personagens terão vida. Porque é isso que ela sempre vai fazer.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Baby one more time!!

(Hits da Terezinha)


O tiro que sai pela culatra

Faço desse um rascunho, um rabisco, nao uso o Word para requentar essas palavras, vai tudo assim mesmo, de uma vez só, rápido, quase indolor, um tiro a queima roupa. Namorada despede do namorado no portao e leva consigo dez perguntas sem respostas e um dia "em que tudo é poesia". Pontuaçoes, vírgulas, pouco uso dos acentos. Tudo numa frase atirada no papel sem esperança de volta ao dicionário. Grandes sonhos paridos, uns abortados. O que adianta a concentraçao se nao existe o ruído? Um beijo, um jazz, aquela frase espetacular de um filme meia boca. Igual a brincadeira do saco dos poetas dadaístas, vale quanto pesam as palavras, vale o concreto, a tentativa do caos, o ser quase, qualquer coisa que valha. Esse vai para desenganar o cerebro da tentativa de parir qualquer coisa que preste, já me persegue a pluma, e eu correndo, e a pluma atrás de mim, ah esse ruído, essa estranheza, essa troca de palavras em vão. Essa leveza que nem eu entendo, que quase nao suporto, que bem que podia durar, pra que esse seja esse suspiro, essa pequeneza, esse único tiro, que sempre volta contra mim, que sempre me faz passar a limpo. Nao. Dessa vez é isso aqui mesmo. Uma última tentativa, e esse eu-lírico desfigurado lutando para ser alguma coisa que o valha. E um ponto que nao signifique exatamente um ponto.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Poesia de açucar

Adélia para os dias de pele doce
como hoje.
Ei voce! psiu!
sim, voce.
Quer lamber?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Vale a pena ver de novo.

Vou postar novamente alguns textos antigos, do outro blog da Terezinha, quando a Terezinha andava morrendo de amor perdido pelos bares sujos da vida, e entre pedras molhadas de rio pelo caminho.

Provas Forjadas

E ela sentou, naquele piso frio e sujo, como a esperar. A barra do vestido rasgada, a boca como vestígio e a violência daquele toque impresso além da pele, a tirava de si. Ela pesava e o seu corpo não lhe encaixava mais. Era feito para planar, mas ela achou que fosse de aço. Ele gastou tudo o que tinha, e ela perdeu a única coisa que importava, sua dignidade. Ela sabia que ainda possuía algo, que estava lacrado e que se fosse aberto poderia ferir alguém. Como a caixa de pandora, só que essa possuía destinatário próprio. Ela se sentia como a musa a seguir seu mestre, numa busca psicótica e obsessiva. Um xérox de quinta, que enlouquece tentando alcançar a magnitude que nunca vai possuir. Ele a via dentro de um aquário, como uma miniatura do que poderia ser sua maior obra de arte.
Para alcançar a beleza, haja dor. E houve. Os dois não sabiam, mas estavam cegos. A própria dos desesperados, dos desavisados, dos que estão pra cometer crimes. E os pés gelaram, o medo quebrou paredes, derreteu tintas. E ele fugiu. Correu tanto, que acabou por chegar dentro de si, dentro de suas entranhas salgadas. Esse foi o seu castigo e o seu crime. Ela continuava ali, sentiu o gosto de sangue pelos cantos da boca, só escutava o barulho do relógio, na vitrola,uma música perdida, e impresso nela, mais nada.

Março 2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Está tudo sobre controle.

Malabarismos 24 horas por dia.Prepara lanche da Cecilia, lembra de quando sua mae fazia lanche pra voce, lembra daquela gosma pastosa que se transforma o presunto do misto quente e por favor, nao cometa o mesmo erro. Não mande nem presunto, nem manteiga, nem leite com toddy de lanche. Isso voce aprendeu. Frutas, sim ela gosta de frutas,banana, pronto. Banana. Nada de maçã picadinha ou pera. Lembra?Elas escurecem. Nada de refrigerante na garrafinha térmica, ela explode. Lembra? Pois bem. Fez o lanche? Ok. Pisa fundo no acelerador, lembra quando era ruim ser o último a ser pego na escola, isso nao deixa que isso aconteça. Entra na sala de aula, olha o quadro da professora. Lembra quando era bom ver a mae entrando na sala minuscula de aula e perguntando pra voce "onde voce senta flor?" pois bem. Faça isso.Pois bem. Chegue em casa. Mais um passo. Telefone. Hora do namorado. Tudo bem? Sim e voce meu bem? tudo bem. O que vai fazer agora? Vem pra cá. Vou. E vou. Voce sabe o quanto é bom chegar com um filme nas maos,voce sabe o quanto é bom estourar pipoca e assistir ao filme.Isso!Delicia, pés debaixo do cobertor, escurinho de cinema,brincar de esconde esconde com a mão. Bom. Muito bom. Coraçao que deita na rede e balança ao som de Portishead. Triiim. Telefone. Hora de voltar pra casa. Hora de colocar Cecilia pra dormir. Hora de dormir. Malabarismos. Surpresa. Estica a hora, encolhe a hora, rodopia a hora. Os olhos deles na sua mente. Seu coraçao na rede segura ou na piscina do Cajubá. Meus braços sao dois, mas sao compridos e bem flexíveis. Abraçam daqui e de lá. E está tudo sobre controle.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Jesse e Celine


Talvez esses sejam os dois filmes mais subestimados da história do cinema. Os malabarismos que Linklater faz para dar força a história, as imagens capturadas, Viena, uma cidade completamente desconhecida no cenário filmes-bacanas-feitos-na-Europa. Dois personagens e uma estética e proposta que permite que estejamos dentro do filme guiando os passos de Jesse e Celine. O antes do amanhecer nao é mais poético ou menos realista que o antes do pôr do sol. Não acredito nem no contrário. Pois bem. Tenho ciúmes sim das coisas que descobri ao longo da minha vidinha cinematográfica. Eu vi esse filme dilacerar meu coração na adolescência, e senti o drama e a felicidade de encontrar Jesse e Celine nove anos depois em Paris. Os dois, nao sei porque cargas d´agua, viraram filminhos cult, pq nao vao cultuar Donnie Darko ou Dogville, pelo amor? Sim, como ja disse, tenho muito ciume do que eu descobri. (E aposto que a Maíra e a Luana concordam comigo)E me dá nojinho (adoro essa palavra, quem me ensinou foi a Jess) de ver quantas pessoas comparando esses dois com outros filmes mamão-com-açúcar e com finais idiotizados ou rasinhos. Sim, eu não gosto de discutir cinema, acho péssimo alias, fico me sentindo um verme, prepotente e mal educada, me sinto mal mesmo, afinal, deixe os meninos se divertirem. Claro, deixo sim. Não sou nenhuma reacionária, só tenho muito ciúme. Eu queria guardar esses dois numa estante escondida, onde que eu só pudesse ver junto com Luana e Maíra. Eu queria. Guardar e voltar no ano de 1996/1997. Eu queria aquele dia de novo, em que assistimos o filme juntas, e discutimos o filme, nós duas, com um copo de cerveja na mao e vários cigarros. "A gente é tão legal!". Bom, é isso. E para vocês que ainda não viram, não faço questão nenhuma de que vocês vejam, pra mim é melhor assim... ciúme sabe?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Verdade de bastidor

Tenha muito medo de frases como "olha, preciso te contar uma coisa". Olha, eu preciso ir no banheiro antes.




Barulho de pinga pinga da torneira da pia.

Shhhhhh silêncio.

Cortinas abertas e voce precisa pisar no palco para o primeiro ato. Você precisa tomar partido, voce precisa encarar a cena, e tudo parece tao de mentira, voce nao acredita que precisa passar por aquilo. E essa verdade te mói, voce precisa agradecer a platéia mas nao sabe como. E aquela luz te cega e voce pensa "isso nao pode estar acontecendo, deu branco, esqueci minhas falas". Parece que tiraram voce do seu corpo, e no lugar colocaram algodao para preencher o vazio. Isso, algodoes e varios fios. Isso, voce se torna marionete de pano, a cena nao importa mais, que seja triste ou feliz, nao depende de voce o fim. Voce dança um foxtrote "engraçadinho", entretêm a platéia. A luz fraqueja, seus olhos não estão mais ali. Não é você mais ali. Do seu lado talvez contracenando com você um boneco de ventriloquo -o vai e vem da cabeça- regurgitando sons, risadas, sacolejos e aquele olhar irônico. E aqueles algodoes te sufocando, fios de serpentina sendo jogados, um circo. Isso um circo. A peça está confusa demais, parece com um circo. A peça acaba, voce nao sabe como, os algodoes nao substituem o frio no estomago, nao ainda. E as cortinas se fecham. Você nao sabe como abrir os olhos, prefere ficar guardada, bem quieta no camarim.

ttrrrrrrrrrrrrrrr ranger da porta do banheiro, sai logo daí menina, enxuga esses olhos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Rafaella.

Sempre tentei ser discreta nesse espaço aqui. Nunca sou eu sozinha que escreve, tento dolorosamente deixar claro isso, nunca precisei falar de mim, nunca quis na verdade. Mas nao tem como ir mesmo contra a correnteza, como ja dizia Jessie, a Block, "vc é bandeira de si mesma", no começo o disfarce era em vão. Quem lia sabia do que exatamente eu tratava, e o obstaculo ficava cada vez maior, o labirinto cada vez mais largo. Já nao sabia se era eu só ou se era minhas Alicias e Marinas e o diabo a quatro, até eu lirico masculino eu quis usar para tirar o meu da reta. Quanto ingenuidade. Fazer ficçao é trabalho tao dificil, escrever nunca foi facil, eu queria nao ser dependente fisica de transformar minha vida num ato de ficçao continuo. Não que eu nao vivo plenamente a realidade, afinal tenho contas a pagar, o leite da Cecilia pra comprar, um namorado avesso a realidades inventadas, uma mae que nao suporta meu linguajar de botequim, meus palavroes, o cigarro que eu nao posso fumar em publico, eu moro demasiadamente na realidade, minha filha tem problemas em abstrair o ficticio, esses dias aconteceu um lance bacana, tinha uma mulher no sinaleiro da Nicomedes vestida de Emilia, aquela do sitio do pica pau, eu disse toda efusiva pra Cecilia, "filha olha que legal, a Emilia veio laaa do sitio vender balinha aqui no sinal" Ah a fantasia, o auto engano mais delicioso que existe, o que é inventado nos primeiros anos de vida é a verdade mais gostosa. Só sei que ela custou abstrair que a Emilia tinha vindo la do sitio pra cá, até que no fim ela se convenceu, e até convenci ela que quem tava do lado da Emília era a Narizinho, foi bonitinho ela me perguntando, "mamae elas vieram de que pra cá?" Enfim, consegui sublimar aquele sinaleiro que nao abria nunca, a Cecilia conseguiu transformar sua primeira ficçao em sua realidade de criança. E é mais ou menos assim com as coisas que eu escrevo, Marinas e Elenas sao sugadas de uma conversa de amigos, de uma teoria de botequim mesmo, de uma cena que eu vejo, nao sou eu. Mas nunca mesmo. Eu sou essa daqui, que falo na primeira pessoa e me designo como Rafaella e ponto. E só dessa vez, só porque estou me sentindo culpada por essa tristeza e mau-humor que nao passa, hoje. Mas vai passar... sempre passa.

domingo, 13 de julho de 2008

quinta-feira, 10 de julho de 2008

The spaghetti man

Mais uma história fantástica para mocinhas indefesas no meio do pasto do cerrado. O homem macarrônico. Aqueles que mastigam o fumo, que te violentam com o cigarro do lado da boca, que te catam quando você abana o lenço. Envolvem você num drama quase barroco, você se vê falando frases como: “estou perdida sem você”.
Sim, esse mesmo, que por ter visto essa violência exagerada de sentidos, por ter visto essas tramas esbugalhadas aos nossos olhos, essas manias de bandidagem e pouco caso. Não, não trato aqui de um aliado do anti-cafajeste, de uma versão pitoresca do mesmo. Trato de um herói abusado e cheio de malicias incompetentes. Trato aqui do sexo sem condicionamentos, ou subterfúgios, ou qualquer medida paliativa. Aqui se trata do sexo feito à luz do sol, aquele pêlo tratado, de cavalo livre no pasto, sexo sujo, feito de cuspe, de suor de lima, de vestido pendurado no varal.
O lenço que você jogou para ele, mais tarde vai servir para ser banhado numa vasilha com água morna e preparado de arnica, para curar todas as feridas à queima roupa, uma por uma.
Duelos e despedida e o que for escrachado, tudo o que você puder limitar a uma boa dose de partida. Olhos por baixo das rédeas curtas, do drama sem precedentes da alegria agonizante.
E você puxará o cortejo e vozes cantantes e o enterrará –cheiro por cheiro- a sete palmos da terra.
Prepare a arnica, prepare o antidepressivo, o anti-inflamatório, as boas doses de uísque e o som de Ennio Morricone. Você vai precisar. E não conte comigo, não compartilhe dessa vez, vá sozinha...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A caixa

E fomos preenchendo aqueles lugares solitários, para cada mofo que não ocupava. Para cada cheiro de perfume estragado, pétala ressecada, aquela rolha do champagne de 72, em Cabo Frio. E você entupiu aquele espaço, foi jogando tudo pra detrás da mesinha do telefone. Bilhetes avisando do atraso, poesia rabiscada e batida. Aquele quadro que eu fiz você me prometeu uma flor azul dele. Eu não tive o que mereci. Você não me esperava no aeroporto, como todo mundo. Tudo que planejamos foi embora com a memória do computador, que não era meu. Os lençóis brancos e uma cama king size numa casa de piscina, no campo. Você dizia “vou fazer o escritório desse lado do quarto para você poder escrever seus livros”. O que ficou disso agora são dedos trêmulos que insistem em bater nessas teclas vazias e sem abalo algum. Eu não mereci cada centavo daquelas ligações interurbanas. Maria Monforte e sarjeta de quinta, para você ver que não foi bem assim, o fim. E se eu trago isso tudo para cá agora é por pura falta de sorte, por pura ignorância e egoísmo. Portugal. Ah Portugal. Você precisou voltar e ser feliz com ela. Uma atriz shakespeareana de araque que te prende pelos cabelos no pé da mesa. Mas quem mandou? Quem mandou olhar para o mar, olhar fixo e distante para aquele ponto branco longe e frio, e pensar que o futuro iria ser melhor sem você? Que outras bocas e mãos e dedos e o diabo a quatro, quem mandou pensar que seriam tantos se não fosse você. Agora eu me vejo passando a chave pela última vez nessa tranca que era sua e minha, eu vejo essas cartas dissecadas pelos meus olhos, eu vejo esse CD da Elis, que nem escuto mais, que não é meu. Estou de mudança e preciso jogar essa caixa no lixo, a caixa com o seu nome no lixo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Sour times




Apanhava limão no quintal, e pedia para minha avó fazer laranjinha de limonada, chupava aquilo o dia todo, chamava a amiguinha pra sentar comigo, e a gente fazia desenhos no chão com gravetos, fininhos, uns mais grossos, no fim saia um coração. Não sei se ela sabia o que estava escrito ali.

Batia meu coração nos ouvidos dela. A limonada descia geladinha, o cabelo dela.E o cabelo dela fazendo reflexo na minha camiseta. Ela me dizia do presente que tinha ganhado-uma caixa enorme com perfuminhos da Angélica-

Passava tarde, passava verão, passava massa corrida nas paredes da casa, derrubava a árvore.

Sour times aqueles.

A benção do plágio

Tarantino sempre me lembra porque o cinema é de mentira.

O plágio como benção

Sabe aquelas frases desimportantes? Aquelas citaçoes de outras pessoas dizendo que foi Clarice Lispector que escreveu, ou Drummond? Sabe aquela fraude? Aquela musica dedicada que nao é para voce, aqueles versos que encantaram, e depois as entrelinhas embaçaram, e voce descobre que a parede é de isopor, o murro nao dói, o beijo é de mentira, igual filme lado B. Ou qualquer Tarantino que te interesse...
Voce anda pela calçada escutando aquela frase ridicula daquela banda que voce escutava, e plageia o momento.
Igual agora: "alguns sao idiotas e outros sao mais idiotas que os outros"


E Tarantino nao precisa de facas de requeijão.

Ser brega é o novo preto



A menina não pode mais se apaixonar. Parece que virou pecado, sem direito a redenção. Usa salto alto, fala bem o francês_ estudou em colégio de freira_Cortem-lhe a língua se deu no primeiro encontro, se bebeu demais, se levantou a saia em cima do palco.

A menina viaja pra longe, onde os holofotes não a seguem, e onde não existe internet, mas existe praia. Porque pensa, holofote, falar francês e viajar para a Europa não é para qualquer menina.

E a menina pisa em falsete pisa fundo pisa pesado. Ela dá chilique dentro dela mesma. Não. Não quero me foder. Não vou pro limbo, vou ficar bem em pé. No equilíbrio das coisas.

Mas a menina não está sozinha, ela carrega junto dela, veias, virilha e coração. E ela viaja, e encontra o broto, e a pele fica um pêssego, as pernas mais leves, e nós pés, só areia e água salgada. A menina achou a porta, e a destrancou. A chave ela engoliu, e dentro dela, não importa...

O que importa é que apesar do francês, da falta de educação polida e da capela do colégio, ela não pode evitar. Não pode com o peso que ele colocou por cima dela, com seus ombros e sua mão.

A menina volta pra caixa de música_e “padam padam”_ com a poesia na cabeça e um “vai se fuder, estou bem assim, fica longe de mim” . Porque, isso de aprender a rezar é balela, a menina sabe o que é proibido para um coração comprimido pela razão de toda uma idade, de todos vinte e alguns infernos astrais.

Entre reticências

Você abriu o armário, colocou o mesmo tênis sujo e saiu. Eu sabia que me procurava que queria saber que lugares eu estava, se andava comendo, ou se andava trepando. E subia e descia as escadas de casa, para ver se minhas pernas se cansavam, pra ver se eu me contentava com a água quente do chuveiro, cabeça baixa e seios molhados. Mas você sempre me encontrava, no mesmo maldito bar, com o mesmo copo nas mãos, e a mesma fumaça do cigarro que você dizia “cigarro de puta”. Você vinha para perto, com mãos em outras mãos e esperava que eu acenasse para você. Eu virava o rosto, te odiava por quatro segundos, e sorria, porque sorrisos são fáceis, mais fácil até que acender um cigarro. O que me interessava nessa roda viva era te machucar com arranhões, te chutar o saco, te mandar se fuder e que levasse as mãos e as pernas que te acompanhavam.


Amanhecia e o barulho da campainha e o síndico me cobrando o aluguel atrasado, e eu com cara de puta amanhecida, maquiagem encobrindo os crimes do choro passado, e pesadelos _o outro vindo e atormentando e chorando e pedindo perdão_ e o bloco que não se divide e transforma todos no mesmo algoz.


E a outra noite já chegava, e de novo, o mesmo tênis sujo a passear pela minha cabeça _toc toc toc_ e a mesma noite a cuspir verdades falsas, me gabar do batom vermelho junto com a discussão barata de qualquer filme francês.


E depois dos mesmos copos sujos, você passa por mim, e eu sei que você não via a hora de me achar no mesmo lugar, entre reticências...

E você vinha com aquela camisa batida, com o rosto amassado, vinha com aquele papo clichê e perguntava por que eu insistia em fumar o mesmo cigarro _aquele de puta. _

E eu pensava muito antes de responder, porque na fossa não temos limite, ainda mais alguém levada por filmes dramáticos, na fossa falamos como quem soltam bombas, e a vontade era xingar, e maldizer o tênis sujo, e a mão que não saía de sua mão. Mas entre isso, o maldito sorriso medroso. Lá ia eu sorrindo para suas retinas. Droga.

Aí teve um dia que você me encontrou, mais perdida do que o de normal, e me chamou para tomar uma cerveja e jogar conversa fora e contar que sua vida não tava boa, que havia caído uma bigorna na sua cabeça e que você não pensava direito. Veio me dizer essas coisas, e não havia mais pensamento nenhum na minha cabeça. Só aquela pinta detrás da sua orelha. E você dizia “não chora, vamos beber comigo”

E eu chorava, e lamentava, e mudávamos de bar, e num terceiro, eu ia pra sua casa, e entre tudo isso, me sobrava acordar com sua camisa cheirando ao mesmo cigarro, e o que me restava era andar na rua com ela de cabelos molhados, como a querer mostrar pra elas que entre uma mão e outra existe um coração. E não era o coração dela, da outra, a estar ali. Era o meu. Mas ninguém sabia. Só eu.

Eu, hemorragia.


Primeiro, era a Terezinha....


Eu passeava distraída, com um copo meio cheio nas mãos. São nas distrações que as coisas ao sublimarem o fantástico, acontecem. Meu grande amor, parado ali, bem na minha frente. Sabe quando aquela pessoa sorri pra você, e sem querer acreditar que aquilo é contigo, você olha pra trás? Só pra ter certeza de que não está acontecendo com você. E aquele gesto faz você ser, por segundos, mais patética do que realmente é? Pois então... Foi assim. Corri por muito tempo atrás daquele sorriso. “Aceita um halls?”, E aí meu bem? O que você faria se só restasse esse dia? Ele foi minha primeira folha em branco, o primeiro a ficar pálido comigo. Os primeiros pés debaixo das cobertas. Eu fui, seu primeiro tombo, sua primeira Vênus de Milo, o primeiro blefe, a dor da qual ele contava, e exagerava, não cabia a mim entender. Não coube. E ele se foi. Por mero descuido do destino. Tentei trazer ele de volta. Mas... ah o destino. Hoje em dia ele ainda me assombra. Vem sorrateiro, em sonhos. Minha vida se divide. E são eles que separam o joio do trigo. Todos eles. O segundo me deu vida. Me deu meu fruto. Soubemos do amor carnal, do pão amassado de manhã. O real, os gestos,as provas de amor bem na nossa cara. E a gente sorrindo pra elas, e brincando com elas. Até que me faltou o sentido, nos faltou garra, e eu faltei... Fui embora. Com a cruz nas costas e com flores que teimavam em nascer sob meus pés. O terceiro e o último, esse que marca a margem dos meus dias, veio apenas. Chegou de mansinho. Outra distração minha e... Com o coração e pernas largas, me abocanhou. Mastigou e engoliu. Quis cuspir, conteve-se. Jogou fora apenas. ... E assim minha vida não divide mais. Caí no vazio, me coube algum espaço, para que as veias se abrissem, e explodissem. Agora, sou sangue escorrendo por entre as pedras, as que ficam pelo caminho, as que correm rio abaixo. Eu sou hemorragia que não estanca. Espalhada por entre corações que pulsam, que param. Entre o seu. Eu sou o gozo da sua dor. Você não percebe a minha? Você ainda não percebe?



Escuta... drop drop drop... Sou eu pingando, por aí. Colorindo o pé de amora, outra vez.



Posto esse, porque foi com esse que minhas veias conseguem pulsar frente a caneta. Terezinha se muda pra cá com mais histórias de sua vida fantástica, suburbana e visceral. Terezinha, essa que encaixa suas dores na minha, que fazem de nós duas aquele eu-lírico disforme, e refletido num espelho embaçado. Para quem insiste em perguntar, nunca sou eu. São personagens. É bom que fique claro isso. Ou não.
Imagem: Asas do desejo de Wim Wenders