segunda-feira, 28 de julho de 2008

Poesia de açucar

Adélia para os dias de pele doce
como hoje.
Ei voce! psiu!
sim, voce.
Quer lamber?

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Vale a pena ver de novo.

Vou postar novamente alguns textos antigos, do outro blog da Terezinha, quando a Terezinha andava morrendo de amor perdido pelos bares sujos da vida, e entre pedras molhadas de rio pelo caminho.

Provas Forjadas

E ela sentou, naquele piso frio e sujo, como a esperar. A barra do vestido rasgada, a boca como vestígio e a violência daquele toque impresso além da pele, a tirava de si. Ela pesava e o seu corpo não lhe encaixava mais. Era feito para planar, mas ela achou que fosse de aço. Ele gastou tudo o que tinha, e ela perdeu a única coisa que importava, sua dignidade. Ela sabia que ainda possuía algo, que estava lacrado e que se fosse aberto poderia ferir alguém. Como a caixa de pandora, só que essa possuía destinatário próprio. Ela se sentia como a musa a seguir seu mestre, numa busca psicótica e obsessiva. Um xérox de quinta, que enlouquece tentando alcançar a magnitude que nunca vai possuir. Ele a via dentro de um aquário, como uma miniatura do que poderia ser sua maior obra de arte.
Para alcançar a beleza, haja dor. E houve. Os dois não sabiam, mas estavam cegos. A própria dos desesperados, dos desavisados, dos que estão pra cometer crimes. E os pés gelaram, o medo quebrou paredes, derreteu tintas. E ele fugiu. Correu tanto, que acabou por chegar dentro de si, dentro de suas entranhas salgadas. Esse foi o seu castigo e o seu crime. Ela continuava ali, sentiu o gosto de sangue pelos cantos da boca, só escutava o barulho do relógio, na vitrola,uma música perdida, e impresso nela, mais nada.

Março 2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Está tudo sobre controle.

Malabarismos 24 horas por dia.Prepara lanche da Cecilia, lembra de quando sua mae fazia lanche pra voce, lembra daquela gosma pastosa que se transforma o presunto do misto quente e por favor, nao cometa o mesmo erro. Não mande nem presunto, nem manteiga, nem leite com toddy de lanche. Isso voce aprendeu. Frutas, sim ela gosta de frutas,banana, pronto. Banana. Nada de maçã picadinha ou pera. Lembra?Elas escurecem. Nada de refrigerante na garrafinha térmica, ela explode. Lembra? Pois bem. Fez o lanche? Ok. Pisa fundo no acelerador, lembra quando era ruim ser o último a ser pego na escola, isso nao deixa que isso aconteça. Entra na sala de aula, olha o quadro da professora. Lembra quando era bom ver a mae entrando na sala minuscula de aula e perguntando pra voce "onde voce senta flor?" pois bem. Faça isso.Pois bem. Chegue em casa. Mais um passo. Telefone. Hora do namorado. Tudo bem? Sim e voce meu bem? tudo bem. O que vai fazer agora? Vem pra cá. Vou. E vou. Voce sabe o quanto é bom chegar com um filme nas maos,voce sabe o quanto é bom estourar pipoca e assistir ao filme.Isso!Delicia, pés debaixo do cobertor, escurinho de cinema,brincar de esconde esconde com a mão. Bom. Muito bom. Coraçao que deita na rede e balança ao som de Portishead. Triiim. Telefone. Hora de voltar pra casa. Hora de colocar Cecilia pra dormir. Hora de dormir. Malabarismos. Surpresa. Estica a hora, encolhe a hora, rodopia a hora. Os olhos deles na sua mente. Seu coraçao na rede segura ou na piscina do Cajubá. Meus braços sao dois, mas sao compridos e bem flexíveis. Abraçam daqui e de lá. E está tudo sobre controle.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Jesse e Celine


Talvez esses sejam os dois filmes mais subestimados da história do cinema. Os malabarismos que Linklater faz para dar força a história, as imagens capturadas, Viena, uma cidade completamente desconhecida no cenário filmes-bacanas-feitos-na-Europa. Dois personagens e uma estética e proposta que permite que estejamos dentro do filme guiando os passos de Jesse e Celine. O antes do amanhecer nao é mais poético ou menos realista que o antes do pôr do sol. Não acredito nem no contrário. Pois bem. Tenho ciúmes sim das coisas que descobri ao longo da minha vidinha cinematográfica. Eu vi esse filme dilacerar meu coração na adolescência, e senti o drama e a felicidade de encontrar Jesse e Celine nove anos depois em Paris. Os dois, nao sei porque cargas d´agua, viraram filminhos cult, pq nao vao cultuar Donnie Darko ou Dogville, pelo amor? Sim, como ja disse, tenho muito ciume do que eu descobri. (E aposto que a Maíra e a Luana concordam comigo)E me dá nojinho (adoro essa palavra, quem me ensinou foi a Jess) de ver quantas pessoas comparando esses dois com outros filmes mamão-com-açúcar e com finais idiotizados ou rasinhos. Sim, eu não gosto de discutir cinema, acho péssimo alias, fico me sentindo um verme, prepotente e mal educada, me sinto mal mesmo, afinal, deixe os meninos se divertirem. Claro, deixo sim. Não sou nenhuma reacionária, só tenho muito ciúme. Eu queria guardar esses dois numa estante escondida, onde que eu só pudesse ver junto com Luana e Maíra. Eu queria. Guardar e voltar no ano de 1996/1997. Eu queria aquele dia de novo, em que assistimos o filme juntas, e discutimos o filme, nós duas, com um copo de cerveja na mao e vários cigarros. "A gente é tão legal!". Bom, é isso. E para vocês que ainda não viram, não faço questão nenhuma de que vocês vejam, pra mim é melhor assim... ciúme sabe?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Verdade de bastidor

Tenha muito medo de frases como "olha, preciso te contar uma coisa". Olha, eu preciso ir no banheiro antes.




Barulho de pinga pinga da torneira da pia.

Shhhhhh silêncio.

Cortinas abertas e voce precisa pisar no palco para o primeiro ato. Você precisa tomar partido, voce precisa encarar a cena, e tudo parece tao de mentira, voce nao acredita que precisa passar por aquilo. E essa verdade te mói, voce precisa agradecer a platéia mas nao sabe como. E aquela luz te cega e voce pensa "isso nao pode estar acontecendo, deu branco, esqueci minhas falas". Parece que tiraram voce do seu corpo, e no lugar colocaram algodao para preencher o vazio. Isso, algodoes e varios fios. Isso, voce se torna marionete de pano, a cena nao importa mais, que seja triste ou feliz, nao depende de voce o fim. Voce dança um foxtrote "engraçadinho", entretêm a platéia. A luz fraqueja, seus olhos não estão mais ali. Não é você mais ali. Do seu lado talvez contracenando com você um boneco de ventriloquo -o vai e vem da cabeça- regurgitando sons, risadas, sacolejos e aquele olhar irônico. E aqueles algodoes te sufocando, fios de serpentina sendo jogados, um circo. Isso um circo. A peça está confusa demais, parece com um circo. A peça acaba, voce nao sabe como, os algodoes nao substituem o frio no estomago, nao ainda. E as cortinas se fecham. Você nao sabe como abrir os olhos, prefere ficar guardada, bem quieta no camarim.

ttrrrrrrrrrrrrrrr ranger da porta do banheiro, sai logo daí menina, enxuga esses olhos.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Rafaella.

Sempre tentei ser discreta nesse espaço aqui. Nunca sou eu sozinha que escreve, tento dolorosamente deixar claro isso, nunca precisei falar de mim, nunca quis na verdade. Mas nao tem como ir mesmo contra a correnteza, como ja dizia Jessie, a Block, "vc é bandeira de si mesma", no começo o disfarce era em vão. Quem lia sabia do que exatamente eu tratava, e o obstaculo ficava cada vez maior, o labirinto cada vez mais largo. Já nao sabia se era eu só ou se era minhas Alicias e Marinas e o diabo a quatro, até eu lirico masculino eu quis usar para tirar o meu da reta. Quanto ingenuidade. Fazer ficçao é trabalho tao dificil, escrever nunca foi facil, eu queria nao ser dependente fisica de transformar minha vida num ato de ficçao continuo. Não que eu nao vivo plenamente a realidade, afinal tenho contas a pagar, o leite da Cecilia pra comprar, um namorado avesso a realidades inventadas, uma mae que nao suporta meu linguajar de botequim, meus palavroes, o cigarro que eu nao posso fumar em publico, eu moro demasiadamente na realidade, minha filha tem problemas em abstrair o ficticio, esses dias aconteceu um lance bacana, tinha uma mulher no sinaleiro da Nicomedes vestida de Emilia, aquela do sitio do pica pau, eu disse toda efusiva pra Cecilia, "filha olha que legal, a Emilia veio laaa do sitio vender balinha aqui no sinal" Ah a fantasia, o auto engano mais delicioso que existe, o que é inventado nos primeiros anos de vida é a verdade mais gostosa. Só sei que ela custou abstrair que a Emilia tinha vindo la do sitio pra cá, até que no fim ela se convenceu, e até convenci ela que quem tava do lado da Emília era a Narizinho, foi bonitinho ela me perguntando, "mamae elas vieram de que pra cá?" Enfim, consegui sublimar aquele sinaleiro que nao abria nunca, a Cecilia conseguiu transformar sua primeira ficçao em sua realidade de criança. E é mais ou menos assim com as coisas que eu escrevo, Marinas e Elenas sao sugadas de uma conversa de amigos, de uma teoria de botequim mesmo, de uma cena que eu vejo, nao sou eu. Mas nunca mesmo. Eu sou essa daqui, que falo na primeira pessoa e me designo como Rafaella e ponto. E só dessa vez, só porque estou me sentindo culpada por essa tristeza e mau-humor que nao passa, hoje. Mas vai passar... sempre passa.

domingo, 13 de julho de 2008

quinta-feira, 10 de julho de 2008

The spaghetti man

Mais uma história fantástica para mocinhas indefesas no meio do pasto do cerrado. O homem macarrônico. Aqueles que mastigam o fumo, que te violentam com o cigarro do lado da boca, que te catam quando você abana o lenço. Envolvem você num drama quase barroco, você se vê falando frases como: “estou perdida sem você”.
Sim, esse mesmo, que por ter visto essa violência exagerada de sentidos, por ter visto essas tramas esbugalhadas aos nossos olhos, essas manias de bandidagem e pouco caso. Não, não trato aqui de um aliado do anti-cafajeste, de uma versão pitoresca do mesmo. Trato de um herói abusado e cheio de malicias incompetentes. Trato aqui do sexo sem condicionamentos, ou subterfúgios, ou qualquer medida paliativa. Aqui se trata do sexo feito à luz do sol, aquele pêlo tratado, de cavalo livre no pasto, sexo sujo, feito de cuspe, de suor de lima, de vestido pendurado no varal.
O lenço que você jogou para ele, mais tarde vai servir para ser banhado numa vasilha com água morna e preparado de arnica, para curar todas as feridas à queima roupa, uma por uma.
Duelos e despedida e o que for escrachado, tudo o que você puder limitar a uma boa dose de partida. Olhos por baixo das rédeas curtas, do drama sem precedentes da alegria agonizante.
E você puxará o cortejo e vozes cantantes e o enterrará –cheiro por cheiro- a sete palmos da terra.
Prepare a arnica, prepare o antidepressivo, o anti-inflamatório, as boas doses de uísque e o som de Ennio Morricone. Você vai precisar. E não conte comigo, não compartilhe dessa vez, vá sozinha...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A caixa

E fomos preenchendo aqueles lugares solitários, para cada mofo que não ocupava. Para cada cheiro de perfume estragado, pétala ressecada, aquela rolha do champagne de 72, em Cabo Frio. E você entupiu aquele espaço, foi jogando tudo pra detrás da mesinha do telefone. Bilhetes avisando do atraso, poesia rabiscada e batida. Aquele quadro que eu fiz você me prometeu uma flor azul dele. Eu não tive o que mereci. Você não me esperava no aeroporto, como todo mundo. Tudo que planejamos foi embora com a memória do computador, que não era meu. Os lençóis brancos e uma cama king size numa casa de piscina, no campo. Você dizia “vou fazer o escritório desse lado do quarto para você poder escrever seus livros”. O que ficou disso agora são dedos trêmulos que insistem em bater nessas teclas vazias e sem abalo algum. Eu não mereci cada centavo daquelas ligações interurbanas. Maria Monforte e sarjeta de quinta, para você ver que não foi bem assim, o fim. E se eu trago isso tudo para cá agora é por pura falta de sorte, por pura ignorância e egoísmo. Portugal. Ah Portugal. Você precisou voltar e ser feliz com ela. Uma atriz shakespeareana de araque que te prende pelos cabelos no pé da mesa. Mas quem mandou? Quem mandou olhar para o mar, olhar fixo e distante para aquele ponto branco longe e frio, e pensar que o futuro iria ser melhor sem você? Que outras bocas e mãos e dedos e o diabo a quatro, quem mandou pensar que seriam tantos se não fosse você. Agora eu me vejo passando a chave pela última vez nessa tranca que era sua e minha, eu vejo essas cartas dissecadas pelos meus olhos, eu vejo esse CD da Elis, que nem escuto mais, que não é meu. Estou de mudança e preciso jogar essa caixa no lixo, a caixa com o seu nome no lixo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Sour times




Apanhava limão no quintal, e pedia para minha avó fazer laranjinha de limonada, chupava aquilo o dia todo, chamava a amiguinha pra sentar comigo, e a gente fazia desenhos no chão com gravetos, fininhos, uns mais grossos, no fim saia um coração. Não sei se ela sabia o que estava escrito ali.

Batia meu coração nos ouvidos dela. A limonada descia geladinha, o cabelo dela.E o cabelo dela fazendo reflexo na minha camiseta. Ela me dizia do presente que tinha ganhado-uma caixa enorme com perfuminhos da Angélica-

Passava tarde, passava verão, passava massa corrida nas paredes da casa, derrubava a árvore.

Sour times aqueles.

A benção do plágio

Tarantino sempre me lembra porque o cinema é de mentira.

O plágio como benção

Sabe aquelas frases desimportantes? Aquelas citaçoes de outras pessoas dizendo que foi Clarice Lispector que escreveu, ou Drummond? Sabe aquela fraude? Aquela musica dedicada que nao é para voce, aqueles versos que encantaram, e depois as entrelinhas embaçaram, e voce descobre que a parede é de isopor, o murro nao dói, o beijo é de mentira, igual filme lado B. Ou qualquer Tarantino que te interesse...
Voce anda pela calçada escutando aquela frase ridicula daquela banda que voce escutava, e plageia o momento.
Igual agora: "alguns sao idiotas e outros sao mais idiotas que os outros"


E Tarantino nao precisa de facas de requeijão.

Ser brega é o novo preto



A menina não pode mais se apaixonar. Parece que virou pecado, sem direito a redenção. Usa salto alto, fala bem o francês_ estudou em colégio de freira_Cortem-lhe a língua se deu no primeiro encontro, se bebeu demais, se levantou a saia em cima do palco.

A menina viaja pra longe, onde os holofotes não a seguem, e onde não existe internet, mas existe praia. Porque pensa, holofote, falar francês e viajar para a Europa não é para qualquer menina.

E a menina pisa em falsete pisa fundo pisa pesado. Ela dá chilique dentro dela mesma. Não. Não quero me foder. Não vou pro limbo, vou ficar bem em pé. No equilíbrio das coisas.

Mas a menina não está sozinha, ela carrega junto dela, veias, virilha e coração. E ela viaja, e encontra o broto, e a pele fica um pêssego, as pernas mais leves, e nós pés, só areia e água salgada. A menina achou a porta, e a destrancou. A chave ela engoliu, e dentro dela, não importa...

O que importa é que apesar do francês, da falta de educação polida e da capela do colégio, ela não pode evitar. Não pode com o peso que ele colocou por cima dela, com seus ombros e sua mão.

A menina volta pra caixa de música_e “padam padam”_ com a poesia na cabeça e um “vai se fuder, estou bem assim, fica longe de mim” . Porque, isso de aprender a rezar é balela, a menina sabe o que é proibido para um coração comprimido pela razão de toda uma idade, de todos vinte e alguns infernos astrais.

Entre reticências

Você abriu o armário, colocou o mesmo tênis sujo e saiu. Eu sabia que me procurava que queria saber que lugares eu estava, se andava comendo, ou se andava trepando. E subia e descia as escadas de casa, para ver se minhas pernas se cansavam, pra ver se eu me contentava com a água quente do chuveiro, cabeça baixa e seios molhados. Mas você sempre me encontrava, no mesmo maldito bar, com o mesmo copo nas mãos, e a mesma fumaça do cigarro que você dizia “cigarro de puta”. Você vinha para perto, com mãos em outras mãos e esperava que eu acenasse para você. Eu virava o rosto, te odiava por quatro segundos, e sorria, porque sorrisos são fáceis, mais fácil até que acender um cigarro. O que me interessava nessa roda viva era te machucar com arranhões, te chutar o saco, te mandar se fuder e que levasse as mãos e as pernas que te acompanhavam.


Amanhecia e o barulho da campainha e o síndico me cobrando o aluguel atrasado, e eu com cara de puta amanhecida, maquiagem encobrindo os crimes do choro passado, e pesadelos _o outro vindo e atormentando e chorando e pedindo perdão_ e o bloco que não se divide e transforma todos no mesmo algoz.


E a outra noite já chegava, e de novo, o mesmo tênis sujo a passear pela minha cabeça _toc toc toc_ e a mesma noite a cuspir verdades falsas, me gabar do batom vermelho junto com a discussão barata de qualquer filme francês.


E depois dos mesmos copos sujos, você passa por mim, e eu sei que você não via a hora de me achar no mesmo lugar, entre reticências...

E você vinha com aquela camisa batida, com o rosto amassado, vinha com aquele papo clichê e perguntava por que eu insistia em fumar o mesmo cigarro _aquele de puta. _

E eu pensava muito antes de responder, porque na fossa não temos limite, ainda mais alguém levada por filmes dramáticos, na fossa falamos como quem soltam bombas, e a vontade era xingar, e maldizer o tênis sujo, e a mão que não saía de sua mão. Mas entre isso, o maldito sorriso medroso. Lá ia eu sorrindo para suas retinas. Droga.

Aí teve um dia que você me encontrou, mais perdida do que o de normal, e me chamou para tomar uma cerveja e jogar conversa fora e contar que sua vida não tava boa, que havia caído uma bigorna na sua cabeça e que você não pensava direito. Veio me dizer essas coisas, e não havia mais pensamento nenhum na minha cabeça. Só aquela pinta detrás da sua orelha. E você dizia “não chora, vamos beber comigo”

E eu chorava, e lamentava, e mudávamos de bar, e num terceiro, eu ia pra sua casa, e entre tudo isso, me sobrava acordar com sua camisa cheirando ao mesmo cigarro, e o que me restava era andar na rua com ela de cabelos molhados, como a querer mostrar pra elas que entre uma mão e outra existe um coração. E não era o coração dela, da outra, a estar ali. Era o meu. Mas ninguém sabia. Só eu.

Eu, hemorragia.


Primeiro, era a Terezinha....


Eu passeava distraída, com um copo meio cheio nas mãos. São nas distrações que as coisas ao sublimarem o fantástico, acontecem. Meu grande amor, parado ali, bem na minha frente. Sabe quando aquela pessoa sorri pra você, e sem querer acreditar que aquilo é contigo, você olha pra trás? Só pra ter certeza de que não está acontecendo com você. E aquele gesto faz você ser, por segundos, mais patética do que realmente é? Pois então... Foi assim. Corri por muito tempo atrás daquele sorriso. “Aceita um halls?”, E aí meu bem? O que você faria se só restasse esse dia? Ele foi minha primeira folha em branco, o primeiro a ficar pálido comigo. Os primeiros pés debaixo das cobertas. Eu fui, seu primeiro tombo, sua primeira Vênus de Milo, o primeiro blefe, a dor da qual ele contava, e exagerava, não cabia a mim entender. Não coube. E ele se foi. Por mero descuido do destino. Tentei trazer ele de volta. Mas... ah o destino. Hoje em dia ele ainda me assombra. Vem sorrateiro, em sonhos. Minha vida se divide. E são eles que separam o joio do trigo. Todos eles. O segundo me deu vida. Me deu meu fruto. Soubemos do amor carnal, do pão amassado de manhã. O real, os gestos,as provas de amor bem na nossa cara. E a gente sorrindo pra elas, e brincando com elas. Até que me faltou o sentido, nos faltou garra, e eu faltei... Fui embora. Com a cruz nas costas e com flores que teimavam em nascer sob meus pés. O terceiro e o último, esse que marca a margem dos meus dias, veio apenas. Chegou de mansinho. Outra distração minha e... Com o coração e pernas largas, me abocanhou. Mastigou e engoliu. Quis cuspir, conteve-se. Jogou fora apenas. ... E assim minha vida não divide mais. Caí no vazio, me coube algum espaço, para que as veias se abrissem, e explodissem. Agora, sou sangue escorrendo por entre as pedras, as que ficam pelo caminho, as que correm rio abaixo. Eu sou hemorragia que não estanca. Espalhada por entre corações que pulsam, que param. Entre o seu. Eu sou o gozo da sua dor. Você não percebe a minha? Você ainda não percebe?



Escuta... drop drop drop... Sou eu pingando, por aí. Colorindo o pé de amora, outra vez.



Posto esse, porque foi com esse que minhas veias conseguem pulsar frente a caneta. Terezinha se muda pra cá com mais histórias de sua vida fantástica, suburbana e visceral. Terezinha, essa que encaixa suas dores na minha, que fazem de nós duas aquele eu-lírico disforme, e refletido num espelho embaçado. Para quem insiste em perguntar, nunca sou eu. São personagens. É bom que fique claro isso. Ou não.
Imagem: Asas do desejo de Wim Wenders