terça-feira, 12 de agosto de 2008

Nenhuma saída is safe enough

(“Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta.”) — frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodín, em 1886.
Eu voltava para casa, voltava tão suja de memórias, dias e outras línguas que me divertiram, shots de tequila pernas tortas e hotel califórnia na jukebox do Motel Inn, cama dividida, banheiro dividido, coca cola com baunilha. Eu voltava outra. Eu fumava demais na sua frente e você reparava. Eu fazia charme botando banca de americaninha que não lembrava as palavras certas para você escutar, te falava que eu escutava elas lá no fundo em inglês, tudo charme. Eu parava na sua frente e você queria abraçar, eu sei porque eu via escrito na sua camiseta, com várias setas indicando fosse que você queria. Mas você não mostrava nada, você dava de ombros e manchava sua boca vermelha e cheia de carne de fruta madura em outras línguas que não a minha, outras maças de outros rostos. Eu voltava com os ouvidos doendo, garganta machucada, eu voltava bamba. Levei tanto vento no rosto, tanto blues grudado na saia, nos dedos, tanto samba importado. Eu voltei com ares de Carmem Miranda. E isso babe, você simplesmente não suportava. Você piscava os olhos, naquele desdenho manhoso e dizia “não sei falar inglês”. E não era só o que você já não sabia. Você já não sentia meu perfume, você dizia que eu tinha comprado outro, eu dizia que sim, mudei. Trouxe nesse aqui, um Gucci , cara de mulher que não tem a cara mais lavada a noite, só de rímel e blush. Você notava meus passos mudados, aquele sapato boneca verde que você me deu de presente, que eu adorava, eu joguei fora. E você não reconhecia mais nada em mim que combinasse com você. Minto. Havia uma coisa que você reconheceu por todo o firmamento, você reconheceu que não me cabia mais do seu lado. E não adiantava cantar no seu ouvido “Eu posso lá ficar americanizada eu que nasci com o samba e vivo no sereno topando a noite inteira a velha batucada nas rodas de malandro minhas preferidas eu digo mesmo eu te amo e nunca I love you” bem baixinho do jeito que fazia você rir, mas você não ria. Eu já nao tinha mais graça, eu ria a toa, feito boba, eu nao tinha mais graça para você. Então eu voltava para casa e abria meu armário, colocava dentro das caixinhas decoradas com a Marilyn do Andy Wharol todas as badulaqueiras que comprei na viagem, toda a poeira de cada pedaço do mapa que me fez mudar tanto, e sair tão corrida da sua vida. Saí olhando para trás como eu sempre fiz quando eu despedia do outro lado da sua rua. Eu tinha mudado e você mesmo sem querer prestou tanta atençao em mim que se esqueceu de mudar também, e isso te jogou para fora das memórias bobas que a gente tinha, aquelas do sofá da casa da sua mãe e cartas alfinetadas no peito. Descobri tarde que você tinha mudado também e pude me perdoar. Descobri que você pegou aquele avião com o assento vazio do seu lado, imaginando que fosse eu do seu lado a te passar o travesseiro molinho e pequeno e voce percebeu que havia mudado, olhou para longe, no rumo do céu, piscou os olhos, piscou nao, deve ter fechado por alguns segundos, se ainda nao me falha essa memória, e suspirou. Era a sua vez de se sujar.


Boa viagem.

2 comentários:

ensaios disse...

ah, agora sim eu pide ler.

e as vezes eu acho que aquelas caixinhas amarelas da triton te inspiram mais que o normal. haha

Eu hemorragia disse...

pluct plact zum!! vcs nao vao a lugar nenhum.

ce ta achando?

hahahahah

A Maíra me chamou de Bette Davis e fez o seguinte comentário: " Ah essas sinceras ficcoes"
né?