sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Haikai

me passou derrepente
no céu da boca
uma estrela cadente
Itamar.


Porque a coisa mais dificil de se fazer é um haikai, e o Ita sabe.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O que sobra é um borrão, numa tela apagada.

Naquela amanhã acordei toda doída. Um sono que me espancou e eu não sentia meus pés. Acordei e fiquei parada olhando para o teto. Poeira para todo lado. Traças comiam meus livros, olhavam pra mim e davam de ombros. As pessoas grandes me viam de fora da casa e tentavam me avisar. Sem exceção. Tinham boas intenções. E eu uma carne amorfa em cima da cama. E as poeiras dançando, aquele livro do Lautrec com as páginas coladas em inglês, meus olhos embaçados em frente às letrinhas, sensação de náusea. O livro e as traças. As cadeiras da mesa de jantar encarando o quadro que eu mandei emoldurar, do cartaz daquele filme, bem antigo. A cama tão grande, e umas manchas nas fronhas, amareladas. Quando ouvi o primeiro ruído, fingi não perceber. O berço que esperou o filho que não veio, balançava sozinho. O armário com as caixas verdes, uma acidez estranha as consumia, eu já não lembrava de nada que coloquei ali, exceto duas coisas: as chaves do seu apartamento e um girassol pintado na madeira. A casa era tão grande. A cama, a janela sem as cortinas, que havia prometido bordar e nunca coloquei de volta no lugar delas, estavam lá, dentro do armário, emboladas. E todos os remedinhos manipulados, em vidrinhos laranja. Todos lá. E levantei da cama, o rangido me assustou, fiquei parada esperando passar. Consegui colocar os pés pra fora do colchão. Crec Crec Crec. Começou pela parede, depois os armários, as estantes, notei e não vi mais nenhuma traça nos livros. Espertas as malditas, fugiram todas. Não pude salvar nada. Eu já não era nada a não ser uma parte dessa colagem que chamam de Arte. Nem aquele souvenir que eu ganhei. Nada. Corri, e o chão se abriu. Corri tanto que nem percebi. E as pessoas todas de gravata sensatas, felizes e bem amadas lá de fora, gritando por mim, sem saber meu nome, gritando Corra rápido. Quando olhei para trás. não vi mais nada. Já não era casa, já não era nada. Eu não era nada, apenas esse amontoado de coisas que já não existe. Tudo terra abaixo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Passeio no bosque


o canivete na mão não deixa
marcas no tronco da goiabeira

cicatrizes não se transferem



Sina


o amor que não dá certo sempre está por perto


Ambos de Cacaso.

Obra: sem título. (Vol.2)

“Her capacities go out, one by one... And there’s no night, no stars, only a cellar from which she can never walk... and which nobody else can stay. She's given medicines which make her ill, but would stop her dying. For a little while... They’re scared. I'm scared.” To the Wedding by John Berger.

E teve aquele dia em que eu enchi o saco. Revirei tanto as caixas do meu armário, dei voltas nauseantes pela minha cabeça mofada, cheia de historinhas vis construídas sempre para cutucar a ferida de alguém que nunca vem ao caso. Nunca mesmo. Fantasio que eles vão ler tudo, e vão sacar e remediar perdão. É muita pretensão mesmo. Putz. Eu escrevo para satisfazer essa ególatra, megalomaníaca e pedante dentro da minha cabeça. Ela é um monstro dentro da minha cabeça. Uma massa disforme, com unha e cabelo. E cria esse horror-show nostálgico que não serve para nada, apenas para alimentar mais e mais essa massinha encrespada e suja. E acha que é ficção e sonha o que tiver que vir, e romantiza esse ato para quem quiser ler. E atravessa os fios do holofote com um bisturi na mão e corta parte por parte desse cérebro duro, inócuo, e deixa à mostra. E fantasia que eles vão continuar lendo e sacando tudo. “Olha esse aqui, eu fiz para você, seu puto”. Que patético! Você ainda não percebeu que ninguém se importa? Nobody just don´t give a damn! Vem um serzinho baixinho e magrinho do meu lado, esse que fica de fora e não dentro, quase sem vida, me dizer essas coisas. “Voe, voe, vá e cumpra nossa missão” Me perdi. Qual mesmo? Qual missão? E eu tentei escrever tanto pra alcançar a pluma, sim aquela mesma indecente, que não existe. Não tem pluma nenhuma. Que criação mais fajuta, cansei dessas invenções, dessas palavras repetidas, pálidas, até desse adjetivo que antes eu achava, bem... eu achava. Fantasio que todos vão ler, e vão sacar tudo. A massa disforme começa a mexer aqui dentro, essa insatisfeita, egocêntrica, reluta em dizer o que mesmo? “Ninguém se interessa, ninguém quer conhecer de fato as dores, os afazeres diários, ninguém quer saber sobre o seu dia, o verme quer apenas o mistério da vida, o corpo delineado na próxima esquina.” Esses putos. Ninguém vai ler. E o que eu faço com esse frio aveludado que eu sinto? “Engole com água e aspirina.”