segunda-feira, 30 de março de 2009

O declínio irremediável: a metáfora da puta afetiva.




Você já se viu tão sozinha entre quatro paredes, tão confusa que passou a imaginar que aquele quarto minúsculo em que você estava era o seu mundo inteiro? E você ficou imaginando cenas para sua vida medíocre, você na sua solidão ácida sendo comida por animais famintos? E aquele segredo sujo, que você guardou dentro do seu armário debaixo das calcinhas, pra ninguém saber, que agora cheira a naftalina e você não sabe o que fazer com esse cheiro amargo na sua cabeça? E aquela mentira tonta que você contou? Ela não te deixa ainda mais sozinha? E você cria esse mundinho falso dentro do seu quartinho de merda, com essas colagens do Pequeno Príncipe sobre a cama, essa coisa toda tão, far from you. Raposas que cativam? Não é para você. Você se esvai na cena, ficam só os quadrinhos do seu lado.E olha que isso foi o melhor de você. Agora você não é mais nada. Só esse alter ego que você cria para sair mais bonita na rua. Para os homens te olharem melhor, e te lamberem melhor e te comerem melhor. Mas você sabe, bonito mesmo em bordel moulin rouge são os quadros de Lautrec e só. Sua putinha afetiva, pega logo seu coração e o recorta em milhares de notas de um real, e vende. Assim você talvez ganhe mais. Mas não. Você não consegue né? Você gosta de estar numa bandeja. Você é aquele pedaço de carne no ensopado que eles comem porque viram ali, bem na frente, naufragando nesse caldo, tempero feito por alguém que não gosta de pimenta, ou salsinha. Você é aquele pedaço de carne frouxa que eles dão pros doentes no hospital. Eles se alimentam do que te falta, você não entende que não é Geni? Você entende que não salva ninguém? Puta de respeito é aquela que sabe o quanto pesa, aquela que entende suas 21 míseras gramas. Você não. Não é essa sua onda. Sua onda é outra. Sua onda é ser pózinho para eles. Seu barato é esse, barbitúrico para insones e depressivos. Assume sua vontade. A de ser mais. Que seja qualquer essa adição. Mais puta ou mais santa. Mas se assume. Fica nessa de ficar em cima do muro, se fazendo de vítima da vida e caindo no conto do vigário, e preparando maldadezinhas arbitrárias, assistindo filme marquês de Sade e usando esses pesos na buceta pra ver o quanto ela agüenta de você. É aí que você se contradiz. Fica pelos cantos sofrendo, maquiagem da noite anterior porque eles não te quiseram e fica apertando as pernas uma na outra na tentativa imbecil de abafar esse tesão contido. Esse tesão debaixo do tapete, igual aquela sujeira que você acha que não precisa limpar. É aí que você cai. É aí que te digo, você não é nada. A puta afetiva ela quer tudo, ela quer pegar seu coração com a palma bem aberta e apertar até sangrar, ela quer poema minimalista feito de batom no espelho do banheiro, ela quer a noite deserta nas entranhas dela, bebendo a vodka gelada de va gar zinho. E te esperando. Ela vai te cobrar querido, vai cobrar atenção, vai falar de você para as amigas, vai dar trabalho. Você, meu rapaz, não vai precisar de muito pra conquistá-la. Nem do telefone dela você vai precisar pegar. Ela já te deu tudo no primeiro olhar, a infeliz. É a primeira vez que não defendo artimanhas de guerra femininas. Dessa vez estou do seu lado, sim você mesmo sentado nessa mesa sozinho, de bar, é você está olhando pra própria. Ela está como o diabo gosta, e o coração apertado esperando que você afrouxe essas amarras, silícios propositais. E você vai fazer, é questão de... ih. Já era? Já te tragou né? Que pena, boa sorte amanha, quando acordar do lado dela. E você querida puta afetiva ainda não entendeu?Você ainda não entende sua solidão?

terça-feira, 24 de março de 2009

Respostas líricas

Adoro te encantar... adoro quando vc me lê e se reconhece, eu realmente adoro quando isso faz com que voce responde, caneta na mao, coraçao aberto e pulsando a gente, e a saudade ah a saudade das minhas meninas da cidade grande agora.

as the world falls down
David Bowie. Eu sei porque ela gostava tanto de David Bowie, meio apaixonada. É que aquele jeito magrelo, pernas compridas, com o pênis bem saliente e apertado no meio do colant, sexy sem saber dançar direito, parecia meu pai. Parecia sua fantasia do meu pai, o que ela queria que ele fosse, quando queria que ele se vestisse de lilás, por exemplo. Um cara magrelo, que não sabe dançar, mas, andrógeno, louco gafanhoto se pintando no espelho, de colant, ou terno amarelo berrante, estalando dedos, chegando bem pertinho da boca do Mick Jagger. Mas que beijava de língua as mulheres nos clipes, como a chinesinha delicada, de coque, com carinha de menina, com quem ela poderia se identificar, estirada na areia da praia.
E essa brincadeira de personagens fazia ela suspirar, envolta num neon maquiagem anos 80... (e faz até hoje...).

Who are you, after all?




Se não tivéssemos confiado tanto em tantos talvez fossêmos uma carne mais viva, menos som de mosca rondando virilhas, vermes saindo por buraquinhos obsoletos. Se tivéssemos dito sim pra tudo na vida? Arrepios só de pensar em toda lagarta me perguntando quem sou eu, e pra que sou eu, e por que sou eu. E se for tudo verdade aquilo que eu nego, tentando procurar em tantas jornadas, usando esses passados como bussolas ambulantes dentro da minha cabeça. Mas não tem como acelerar o filme e escutar ao nascer “happiness only real when shared”. Não tem. Ainda preciso desse sal na língua, preciso desses caminhos to nowhere, enfrentando homens of nowhere. E teve aquela vez que a luz ficava piscando até apagar, e eu fico bem parada imóvel no escuro, sem reconhecer nenhum objeto ou nada que acenda minha memória, eu fico imóvel, num pânico, não existe nome ainda para esse pânico que eu sinto. Escuta o barulho, é o tique da bussola que carrego aqui dentro, da minha cabeça, ela me diz pra ir pra fora, agora. Me visto Cabíria e vou, porque se eu ficar muito tempo aqui algo explode, essa veia fininha que faz já algum tempo q vai sendo cerrada, limada, e antes ficasse moldada, mas ta irritadiça, tá pra beira da morte. Visto Cabíria e saio. As mãos tremulas por ter encontrado o nada do escuro, não sabem o que tocar, a língua que já provou o sal, esse que vem da terra, que vem debaixo, também não sabe como provar ou o que provar ainda. Mas consegui, saí. Vou dançando esse trompete, essas caras rindo pra mim, e todas elas falando da doçura que escorre dos meus poros, e eu acredito. Acredito em todas elas, acredito em quadriláteros de romantismo, acredito que não posso faltar a isso, que não devo deixar que me sacaneiem deliberadamente, filhotes de marques de Sade sugando meus miolos com crueldades em falso, bizarrices de filme B na minha tela. Eu acredito em todos eles. Que me guiam sem querer só para festejar eu ali estrela dançante em meio ao caos, carregando minha memória pra lá e pra cá, numa dança vertiginosa. E pegaram na minha mão dessa última vez, eu fiquei criança, me colocaram sentada num sofá macio, cheio de almofadas engraçadas e eu ouvi aquela trilha que me faz chorar sempre de um cinema paradiso libertário e me ensinaram que chorar limpa mais esse meu sangue que escorre, porque ainda há sal dentro de mim. Obrigada, por fim.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Eu como você




Um banquete. É disso que eu preciso. Como ir à cozinha e pegar os talheres, contar os convidados, os pratos, dobrar guardanapos daquele jeito que parece uma tulipa. Festejar cada vela acesa. Muito vinho, porque você sabe, né babe! Nós e nossas orgias, onde a gente coloca o de mais obsceno e pueril quando sentamos à mesa, nossa mente. Vale até discutir os valores judaico cristãos da monogamia nos tempos de amor-líquido. E você descalça, porque babe, não te imagino de outro jeito. É descalça sempre. Talvez por ter te lido o suficiente. Você é aquela bailarina de Wim Wenders , aquela mesma, que fica por cima de todos nós, só mostrando, pernas, cabelos, olhos. Você que faz com que caiamos toda vez nem sentimos o tombo, e você lá em cima no seu trapézio de brincar de desejo, boca sem nada, olhos com aquele cintilante que eu só vi em Sean Young, quando ela acendia o cigarro, e questionava porque de tantas perguntas dúbias se o que importa são as vias, os fatos. E na minha cabeça você fuma aquele cigarro delicadamente, e os olhos não embaçam pela fumaça, cintilam. Sou a favor de pegar um pedaço seu e colar em algum lugar que eu possa tocar, ou senão fazer como eu faço com a cereja do bolo, mastigo e engulo de uma vez só.

domingo, 15 de março de 2009

In blank


Coloco no papel o que a tinta me nega. Ou talvez seja algo bem mais freudiano e obsoleto, e talvez seja melhor nem pensar a respeito. Talvez todos aqueles nós soltos pela vida um dia se entrelaçam, e tudo, tudo mesmo tenha sentido. Talvez me subestimaram demais, se achavam que eu nao conseguiria sentir raiva, que meu sangue escorresse só para fora todo mundo sabe mas tem vezes que ele escorre para dentro, nesse ritmo torto e vicioso, corre para os olhos, e esses me denunciam. Olhos de raiva. Talvez, bem talvez acharam que as coisas são muito desimportantes para serem construídas fio a fio. Como uma colcha de retalhos. Voce nunca pensou que um dia vai contar sua história? Voce nem sequer pensou que vai ter que chegar as vias de fato, e se entregar para o que você é? Quer sangue suor e lágrimas manchando essas casinhas, com janelinhas quadradas, quem você vai colocar dormir aí embaixo? Quem você vai cobrir a noite? Quem você vai manter longe do frio? Memória remendada é a coisa mais triste que tem. Você pega a memória fragilzinha lá, distorce ela toda, amassa, corta, rasga, fica aquele furo, um vácuo. E depois quer o que? Tentar costurar?? Dói sabia? Hoje, e para o resto dos seus dias, como você vai fazer com esse souvenir medíocre que guardou só pra lembrar? Que hoje nao vale nada. Porque a memória babe, a memória é desejo de tornar as coisas findas em coisas eternas. E a sua, desculpa, mas a sua aqui dentro, nao vale nada. Voce nao merece morar nas minhas caixas. Não existe espaço palpável ou nao que voce possa preencher, alias você é aquele lírio cambeta, que caiu sem querer no meu colo, eu ficava olhando pro rio, pensando que o transparente do rio, que sua lucidez é propria do amor. E te joguei lá dentro para te ver mais lírio. Mas você virou um reflexo triste dentro do rio. Sua memória na minha cabeça é só uma sombra. Um eco. Fade away away away away, bem para longe.

quarta-feira, 11 de março de 2009




Labirinto-desejo
É aquela velha história... vai ser só uma mísera frutinha, uma mísera maçazinha, um encantamento de nada, uma coisa imperceptível, quase transparente, um invólucro de desejo. Aquela baba que quase ninguem vê, aquela que fica no canto da boca, uma vontade que não passa, e depois vem Liv Tyler com gracinhas de Bertollucci e aquela língua com não sei quantos fios nervosos tem aquela língua na superficie do espelho. Orgasmos de bilheteria eu chamaria isso. Minha saliva espessa, aqueles gemidos baixinhos, de cachorro pedindo atenção pro dono, um olhar de viés, que corta bem no fio do tecido-desejo. Acender o cigarro na hora bem certa e mostrar carinho com os dentes, boca vestida de vermelho. A leve crueldade dos que tem uma única vez. A certeza da pequena morte. Aquele caminho escasso, andarilhos cambaleantes -vinhos baratos- até chegar ao idílio dos meros mortais. O último bem dizer, o último suspiro e “que perfume é esse”? A brincadeira é sempre a mesma, e eu que sou criança vou brincar sempre que quiserem. Muitas luzinhas piscantes daqui até ali, nos seus olhos, cílios mergulhados em goles de absinto. Pisca verde pra mim, resignado nessa tentativa de entender a brincadeira inventada? Atrapalha o meu perfume alta costura que cochichei meio boba no seu ouvido. É aquela velha brincadeira... Uma lembrança do gosto da frutinha, só isso que você precisa. Uma coisa de nada, um quase nao sei o quê and the world falls down.

quarta-feira, 4 de março de 2009

So far so close

Não chegue perto. Não ultrapasse essa linha imaginária patética que nos aparta, us apart. I´m your girl next door, nao entende? Um muro que separa só. Eu tomo banho as 16 da tarde, deixo meus cabelos secarem na varanda e espero a hora que você vem jogar bola com os amigos. Sou essa garota atrás do muro. Escuto as gargalhadas, escuto seu hálito ofegante, escuto por onde a bola passa. E se ela cair do lado de cá? Nao me peça pra pegar. Eu sou essa menina que ainda cheira a colônia boticário, que pede pra mãe passar o pão na frigideira com manteiga. Papéis de carta, rabiscos e coraçoezinhos de caneta bic. Eu sou essa menina magra, rabo de olho, fita k7 e primeiro sutiã. Não pule o muro. Stay right where you are menino. Esses olhos, ah eu os imagino, pq eu vi eles de outro jeito. Não sei como sao realmente. Eu vi eles passarem pelas grades da garagem. Mas os conheço. Voce inteiro, eu sei como voce é. Aqui dentro da minha cabeça entende? Voce fica meio, meio disforme com toda essa colônia boticário. Eu sei porque de noite esse muro esquenta tanto tanto que nem fisica quantica para explicar. Metade do meu pé na sua casa.´Mas eu lembro, que sei demais sobre você, aqui na minha cabeça, menino com olhos mergulhados em bondade. E de alguma forma, fique por aí, que eu fico por aqui. As 16 eu tomo meu banho, sento na varanda e vou escutar seu hálito de novo. Fresco. Deixa meu coraçao nas linhas do meu caderno de português? Um dia ainda te escrevo um poema, aviaozinho por cima do muro. Aí você vai saber. Quem sabe... por enquanto, so far so close.

terça-feira, 3 de março de 2009

a mais simples das cartas de amor.

Sexta-feira, a lua tava tão linda, tão linda, fina, de casquinha, com uma estrela somente, muito nítida e brilhante no lado superior direito. Constatar a lua, sua especificidade, sua beleza era uma vontade de dividir isso. É matéria romântica, é frase decoradinha pra falar pra alguém, pra apontar o céu e se sentir feliz de ter alguém do lado com quem se pode falar de lua e estrela.

Na verdade, Rafaella, somos duas românticas, duas fucking românticas... Porque..., o que é mesmo o romantismo? Pensei sobre isso e acho que o romantismo é falar da coisa em si, tratar da coisa em si. Cherish. É tornear num torno. Bezuntar pessoas, acontecimentos de uma vontade em si. O espelho do espelho. É pegar memórias e incomodá-las todo dia, cutucando-as no hábito de lembrá-las. E é isso. Quando estamos aqui escrevendo, falando de coqueiros e carnavais, mexendo e remexendo nessa nossa alegoria, estamos praticando romantismo. Você, nesses seus polígonos de romantismo, eu, tentando transformar arestas num corpo oval...


e foi pra mim!!
te amo....