quinta-feira, 14 de maio de 2009

quando a cena é vc e eu num banco do outro lado da rua, esperando um onibus de meia hora de viagem, e voce me olha bem aqui onde moram as borboletas e diz ja sinto saudades, eu nao duvido, eu acredito.

porque você nem sabe, mas quando estou com você ja estou sentindo sua falta. E olha que é como água, que molha e seca ao mesmo tempo. Que festeja e anuncia a despedida.


Para mim e para a Bárbara.

A crônica da mulher nitroglicerina, capítulo I

Estive pensando sobre a última crônica, e percebi que assuntos como aquele tem raízes profundas, com idade de mais de cem anos e milhares de livros lidos, filmes vistos, terapias e aulas de ioga. Então resolvi transformá-la em capítulos, partes a serem seguidas pelas leitoras (e leitores) como uma maneira codificada de mostrar carinho com os dentes, amor unilateral e uma boa massa de tesão explícito. Tesão pela eterna forma de dizer o que pensamos sem prestar atenção a quem falamos. A arte de dizer para digerir. Espero que eu e você obtenhamos sucesso para fazer dessa jornada macunaímica mais que um milhao de estrelas.

Capítulo I
A crônica da mulher nitroglicerina.

Não é a combinação que a faz ser assim, explosiva, mas a maneira como se decompõe tão rapidamente. Não importa muito com quem ela age ou reage, mas no fim essa matéria bonita de mente ágil e coração anil vai explodir, seja em orgasmos múltiplos ou em choros em banheiros públicos feitos de falta de dignidade e papéis manchados de batom. O ambiente é sempre um lugar público, para ela ser bem vista e bem quista. Está sempre com um olhar Maria Monforte, aquele bem negro e estático, que prende você em poesias mimeografadas, daquelas rapidinhas "Estilhaço nao me procure mais nao relembre cada um sofre pra seu lado". Esses olhos assim combinados as mãos que falam mais que a boca,e a memória. (Ah, essa criança vil, que brinca de colecionar insetos vivos presos por tarrachinhas em cartolinas)Ela anda como se quisesse dizer que esteve lá, em milhares de camas e férias no litoral, que sabe como é ter aquela toalha jogada, o fracasso. São muitas as coisas que ela entende. Já viu o Coliseu de perto e já rasgou fotos na tentativa besta de se perder do passado, já disse, essa memória é vil pra ela, a memória não a prende ao mundo, ela mais do que todas entende as histórias de efemeridade, de não deixar pistas pra ninguém, de simplesmente explodir um dia em milhares de estrelas, ela vai pegar e vai entender mais isso, vai viver mais uma vez,vai se rasgar e se jogar fora mais algumas. E ela faz isso sempre nesse ambiente de mil rostos a ve-la e a senti-la. Ela sai para as madrugadas como quem sai para a vida em outro país, sem carteira de identidade, sem essa prova que ela existe e que ja faz tempo isso. Ela sai feita para o primeiro que a ver, que a tocar, que entender os pontos da poesia que ela guarda nos olhos, aquelas... rapidinhas. E ela vai querer todos os seus elementos, pau mãos e língua.Tudo encaixadinho na matéria densa dela. E bum. Se foi, já era, explodiu, pra poder voltar sempre que ela se deixar levar e ser, por milésimos de segundo,apenas ela.

Rafaella Biasi, que adoraria ser uma dessas aí mas nao é, e conhece algumas (uma em especial, obrigada a ela) e as admira por toda essa liberdade metafísica, de prazeres absolutos e culpas cristãs, sempre.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As vertigens necessárias: um ato de amor e redenção

Pra repetir em voz alta no espelho do banheiro.

Isso não é uma apologia arbitrária aos alívios imediatos, encarregados de tirar um peso momentâneo dos ombros, fazendo você acreditar que aquilo -o agora ali- é a felicidade da terra prometida. E depois que passa, você se enxerga pó acreditando que existe uma distância ínfima entre o real e o abstrato, entre a ficçao e a realidade. E eu nao falo só de sexo,drogas e rock n roll.Porque sempre existem os pequenos prazeres-amelie-poulain. O meu eu sei qual é,se misturado ao alcool e ao sexo então... Mas o meu eu sei qual é. Esse exílio de mim mesma é meu porto, do jeito mais literal que um porto pode ser, fedido, batendo água por cima do lodo dos barcos, olhos de ressaca em frente as ilusões partidas e David Bowie. Quando a prosa me falta eu enxergo muito pouco de mim, eu quase nao sobrevivo. Mas talvez, bem talvez, é essa dose de realidade que já levou muitos a loucura, que fez poetas deixarem essas heranças de amor-e-ódio pra trás. Matéria prima inexata de que o rock é feito, e não morre nunca. Deve ser dessa fôrma-cinema italiano e fontana de trevi-que são feitas as mesmas poesias malditas, na rua as três da manhã. E foi por essas frestas que me desligam da realidade vez ou outra que me vi na pista de dança com você imaginando que éramos Johnny e Babe do meu filme de criança. E é por essas e outras que quando nascem estrelas dentro de apartamentos, melhor nao afugentá-las com teorias mórbidas e meias verdades,nao é porque não se acreditam nelas que elas não estão ali,quando eu falar de você vai ser sol por cima de edredon, mas se for de mim, me deixa ser assim, esse alívio terno e maldito de sempre, quando essa corda tensionar demais e explodir, tenha certeza,vai ser sempre pro meu lado, é sempre em mim a culpa dos atos que me danam inteira, e sempre aqui, nesse pequeno prazer. Eu sei qual é o meu, você sabe qual é o seu? O que te faz exilar em portos de vertigem e transparência?