quinta-feira, 14 de maio de 2009

A crônica da mulher nitroglicerina, capítulo I

Estive pensando sobre a última crônica, e percebi que assuntos como aquele tem raízes profundas, com idade de mais de cem anos e milhares de livros lidos, filmes vistos, terapias e aulas de ioga. Então resolvi transformá-la em capítulos, partes a serem seguidas pelas leitoras (e leitores) como uma maneira codificada de mostrar carinho com os dentes, amor unilateral e uma boa massa de tesão explícito. Tesão pela eterna forma de dizer o que pensamos sem prestar atenção a quem falamos. A arte de dizer para digerir. Espero que eu e você obtenhamos sucesso para fazer dessa jornada macunaímica mais que um milhao de estrelas.

Capítulo I
A crônica da mulher nitroglicerina.

Não é a combinação que a faz ser assim, explosiva, mas a maneira como se decompõe tão rapidamente. Não importa muito com quem ela age ou reage, mas no fim essa matéria bonita de mente ágil e coração anil vai explodir, seja em orgasmos múltiplos ou em choros em banheiros públicos feitos de falta de dignidade e papéis manchados de batom. O ambiente é sempre um lugar público, para ela ser bem vista e bem quista. Está sempre com um olhar Maria Monforte, aquele bem negro e estático, que prende você em poesias mimeografadas, daquelas rapidinhas "Estilhaço nao me procure mais nao relembre cada um sofre pra seu lado". Esses olhos assim combinados as mãos que falam mais que a boca,e a memória. (Ah, essa criança vil, que brinca de colecionar insetos vivos presos por tarrachinhas em cartolinas)Ela anda como se quisesse dizer que esteve lá, em milhares de camas e férias no litoral, que sabe como é ter aquela toalha jogada, o fracasso. São muitas as coisas que ela entende. Já viu o Coliseu de perto e já rasgou fotos na tentativa besta de se perder do passado, já disse, essa memória é vil pra ela, a memória não a prende ao mundo, ela mais do que todas entende as histórias de efemeridade, de não deixar pistas pra ninguém, de simplesmente explodir um dia em milhares de estrelas, ela vai pegar e vai entender mais isso, vai viver mais uma vez,vai se rasgar e se jogar fora mais algumas. E ela faz isso sempre nesse ambiente de mil rostos a ve-la e a senti-la. Ela sai para as madrugadas como quem sai para a vida em outro país, sem carteira de identidade, sem essa prova que ela existe e que ja faz tempo isso. Ela sai feita para o primeiro que a ver, que a tocar, que entender os pontos da poesia que ela guarda nos olhos, aquelas... rapidinhas. E ela vai querer todos os seus elementos, pau mãos e língua.Tudo encaixadinho na matéria densa dela. E bum. Se foi, já era, explodiu, pra poder voltar sempre que ela se deixar levar e ser, por milésimos de segundo,apenas ela.

Rafaella Biasi, que adoraria ser uma dessas aí mas nao é, e conhece algumas (uma em especial, obrigada a ela) e as admira por toda essa liberdade metafísica, de prazeres absolutos e culpas cristãs, sempre.

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