segunda-feira, 22 de junho de 2009

Para nós que inventamos pessoas e livros.

(Essa é uma resposta lírica, sem licença à Renato Cabral)

E se até agora foram tropeços e desacertos, talvez exista um motivo para que tudo tenha dado errado até aqui. Deu errado só para chegar até aqui. Se fosse para trás dessas linhas, talvez, nesse espaço imaginário que traçamos com essa fome de escrever, de fazer essas bobeiras com palavras, talvez não teria valido tanto a pena. Foi só para chegar até aqui. Teve um tempo que vivi, e digo de trás pra frente, pra me fazer entender que o tempo nao existe, é imaginação secundária. Teve um tempo que eu vivi numa casa, eu já tinha feridas demais, culpas demais, e fui morar lá pra fugir dessas realidades que as pessoas constroém pra gente. E foi depois que me disseram que eu não sabia amar, que eu não era tão honesta ou gentil com os sentimentos dos outros, aí eu encontrei abrigo e poder de mudança, nessa casa tão grande e ao mesmo tempo tão acolhedora. E nao vivi sozinha como precisava ter sido feito, foi com alguém. E eu dizia que eu precisava de remédios, muitos remédios. E ele me dava. E meus olhos brilhavam igual naquele outro tempo,bom, um tempo bem distante. No tempo que você querido, estava do meu lado, você sabe qual o tempo.E ele não tinha essa casca grossa que eu tinha, e ele nao trazia nada demais. Mas era tão familiar e bonito. E aquele bonito nao dessa beleza que se vê na TV, era bonito de se olhar e só, nao precisava de adjetivos embora o sorriso fosse o meu reino. Mas eu morei nessa casa por muito tempo, escondida porque as pessoas de verdade, de carne e osso nao podiam me ver porque elas me machucavam muito, e ele ali sentado comigo, não. E eu te digo, a respeito dos dragões no paraíso, ele era um, só podia ser o dragão que eu lia sobre e nunca nunca mesmo eu quis encontrar. Não sei se era o meu dragão, ou o dragão de quem descobriu o dragão e escreveu sobre ele entende? Mas era ele. Palpável e que cuidava das minhas feridas. Aí chegou o dia, tão lindo o dia, deixa eu ver aqui na minha memória se consigo lembrar, se eu nao conseguir vou pedir opinião da imaginação, que ela é mais verossímel que a verdade purinha. Mas bem, então vamos lá. Era um dia cor de anil, daqueles bem azuis, um azul que não existe no vocabulário normal, mas que existe. E foi nesse dia fresco e azulanil que eu me curei. Estou livre pensei, posso sair correndo e topar de novo toda essa realidade mórbida, que você deixou pra mim, que nada disso vai me fazer mal mais. Mas ali por dentro onde os fios das roupas se entrelaçam, e por onde corações ainda batem ele se despediu, e é muito desconsolador despedir de quem nos ajuda, mas ele se despediu, com secura e frieza dos que sabem que não vão existir por muito tempo, não nesse mundo que eu e você conhecemos muito bem, porque vivemos plantados nele a vida inteira. Exceto talvez quando tínhamos treze e o mundo era esse espaço entre o seu braço e o meu, correndo as folhas do livro libertador e libertino, que falava de beijos como as pessoas falam de crimes. E agora sinto na obrigação de falar a você o que é viver aqui de novo. Porque estou sentida pelo o que te aconteceu, e ouvi falar de você po aí, em lugares inventados, por pessoas inventadas, mas preciso dizer que existe algo que liga um tempo no outro, e deixa o espaço mais vivo. Digo então que se exista alguma verdade, essa que nos faz sair debaixo desse manto protetor, quase intrauterino e que atrapalha as vistas, porque você sabe querido, bebês nao enxergam direito. Mas se existe alguma verdade, essa que é um xerox da vontade mórbida de ser verdade, essa que escorrega aos nossos sentidos ainda muito baixos e voláteis, eu te digo agora, na tentativa de te pegar no colo e te levar para esse lugar que você pode ser resguardado de todo mal, exigir rigidez no final, exigir certezas de glória e aqueles sintomas de perda que nos fazem chegar mais perto da morte , fazer isso é se perder da grande beleza de nao ser mais. De nao ser mais amor. Porque te digo, com mãos maternais, que o não-ser amor é menos livre do que eu imaginava, também dói, e ja te disse quando eu lia Cléo e Daniel do seu lado, quando tínhamos treze anos, e nos enfiávamos por dentro das cobertas, e eu lia tão bonito do seu lado, “é o amor o contrário da morte, nao a vida, nao qualquer vida”, e os meus olhos brilhavam, você se lembra? Porque tínhamos uma certeza fosssilizada, um cordão tão forte que ligava a gente, como se você fosse meu filho e eu podia dizer coisas doces e você entendia, e como se eu fosse sua irmã, que tentava ser diferente para poder mostrar aos outros quem eu era, mas você se parecia demais comigo. Em algum momento você já não estava ali debaixo das cobertas lendo a vida comigo. E eu nunca mais amei como amei quando tinha 13 anos. E alguem ama?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma nova Era pra nós. (nós que nos amávamos tanto)

Vital e ao mesmo tempo muito doloroso escrever. É assim que eu sinto. Uma boca seca, uma saliva mal engolida, e um monte de frases curtas querendo provar algo aqui. Não quero intimidar ninguém nem afrontar. Mas eu preciso falar. É sobre esse assunto que toda mulher adora falar, principalmente sentadas num bar com cervejas e cigarros a postos. Sim, de vocês. E generalizo meu próprio universo. Algumas mulheres fartas vão comigo, outras cambetas, outras estrelas dançantes, uma corja toda, como Cabírias que seguem a música que passa, ou a realidade como condição.Mas quero mesmo falar. Sei que não devo generalizar, não por motivos óbvios, mas por motivos mais excusos, como o de conhecer dez anos de mentalidades e personalidades e idades e algumas broxadas. Mas vou mesmo assim, porque estou cansada de ser rotulada desde os treze. Mas a impressão que fica, eu como geração sex and the city, é que os homens estão meio perdidos na vala. Não estão sabendo ouvir o samba direito, não estão sabendo conversar, ou olhar pra nós, jogar direito essas brincadeiras de desejo, não estão sabendo manter o que se propõe quando admitem estar curtindo,se amedrontam muito fácil, perdem as boas expectativas, não sabem comer direito e nem limpar a boca depois. E por fim, antes do arroto de coca cola, não sabem dar o fora. Que respeito eu tenho por um cara que sabe olhar bem na minha cara e dizer, olha, nao dá mais, nao tô afim. E nesse momento não lembrar de neuroses ou armas letais. Amor não termina civilizadamente, já dizia o cronista Xico Sá, o amor termina é mesmo na porrada, não numa conversa dentro do carro, ou por post it, ou por email e afins. Não tá afim? Tudo bem, dê a cara a tapa então. E os butecos ficam cheios de mulheres embriagadas, e fudidas na vida porque vocês não deram a chance para a porrada. O tapa na cara, porta na cara. E vocês nos enchem de culpa coagulada com meias verdades e atitudes disfarçadas. Vocês estão mortos de medo do monstro que acham que criaram, dessas costelas geneticamente modificadas por anos e anos de comportamentos vis e ocultos, vocês nao viram a revolução, passaram por ela meio cegos e amortecidos, e agora nao vêem que não precisamos mais de vocês, que existem mais palavras no nosso vocabulário do que existirão nos de vocês em anos. Que palavras como feminilidade, ou feminismo, ou ternura, ou resignação não nos importa mais. Não é mais o casamento que nos salva, ou a dependência afetiva de vocês. Temos Bergman desde os anos 70, temos a Europa e intercâmbios e temos livros e filmes. O que morre em nós de platônico costuma ser a nossa redenção,um romantismo meio escrachado, o romantismo de transformar a realidade em ficção, e perfurar invólucros de dor e amor. É isso, existe uma mulher meio Neo, the chosen one por aí, limitada nessa matrix de merda que vocês nos puseram, pra gente não enxergar uma outra (nova) realidade. E nos despistam com novas invenções e teorias sarcásticas, e mais e mais rótulos. Mas existem algumas mulheres, e são para essas essa crônica. Não precisam mais disfarçar, a gente já sabe de tudo. A gente conhece todos os segredos torpes de conquista e sexo barato. E realmente, se vocês nao começarem a ouvir esse samba direito, aprender tudo desde o começo , como se a civilizaçao tivesse rompido códigos agora! se vocês começarem a ver atrás da cortina de fumaça que vocês mesmo nos envolveram, e começar tudo de novo... ah se vocês começassem tudo de novo, ia ser tão mas tão libertador.

Rafaella Biasi, coitadinha. Só porque ficou um fim de semana inteiro vendo cenas de um casamento escreveu isso aí, mas desconfia disso tudo já faz tempo, tanto tempo que nem se lembra mais, mas sabe que nao pertence a esse lugar, a matrix.