domingo, 29 de novembro de 2009

balzaquiana em potencial

A pedidos

Talvez fosse pra soar positivo, mas não vai, embora a balança do bem e do mal esteja em equilíbrio até aqui. Sou dessas que você vai ver na rua todos os dias e talvez vai parar o carro pra pedir pra eu olhar para os lados, já aconteceu isso comigo aos 13 e isso nunca foi diferente, sou mansa, bicho manso, lerdo, gato preguiçoso que espreguiça, estrala os ossos mas nao sai do lugar. Das coisas que não fiz anotei todas na minha bucket list, ainda vou fazer antes que esse mundo caia na minha cabeça de vez. Nunca fiz a trilha inca, nunca morei na Europa, sou dessas que você vê todo dia, arrumando o cabelo para aparecer melhor em lugares públicos. Não fiz nada até agora que quebrasse algumas vidraças do preconceito ou da hipocrisia e certeza que não vou morrer cedo pra dar pauta para você achar que sou uma pessoa boa e Deus quis que eu ficasse perto dele. Não mesmo. Deus quis que eu ficasse planando aqui, observando tudo como é feito, opinando em tudo, teorizando tudo, uma chata universal. Coleciono muitos traumas, e olha sua pedagoga infame, aquela roupa de índiazinha norte-americana foi minha mãe que fez pra mim e num mundo perfeito eu dancei foi com ela e nao com esse tapa sexo pink que voce me obrigou a usar. Lembro de você, da sua silhueta gigante me coagindo a ser boazinha e gentil. Nunca me trataram bem por ser boazinha e gentil mas acho que a pedagoga não sabia disso. Mas num mundo perfeito... Posso divertir você com histórias bem contadas da minha vida até aqui mas isso aqui talvez nao seja pra ninguem ler, eu o faço por capricho e fetiche, assim como sempre fiz, aquela música dos enfeites e brochinhos e queixas queixas queixas rodando na minha cabeça por todos os caprichos e manhas e depressões e tentativas de desmaio pra minha mãe acudir essa dor que eu nao sei explicar, e que ninguém vê. Exprimi ela mais tarde amando todos com a dedicaçao de uma vaca parida, lambendo a cria e arrancando de cima o sujo de cada um. Acho que o que fiz de mim foi isso, amar. Cada um teve o que mereceu, pra cada um reservei essa pequena dose de veneno anti-monotonia (segredos de liquidificador contados em ouvidos, elevadores e camas alheias permeam esse universo lúdico) e fui o que só pra eles consegui mostrar, essa dor que é a dor de amar, me joguei no chão simulando desmaios e mostrei a todos eles essa dor que ninguém vê, comovi com histórias psicológicas e mostrei pra cada um o que sou. Nunca vou saber se eles perceberam ou se ficou por isso mesmo, aquela menina mimada e em cada gaveta ficou meus brincos e meus broches e meus enfeitinhos empoeirados. Agora estou aqui na sua frente tentando ser menos rodrigueana, tentando ocupar minha cabeça, tentando ganhar dinheiro, pra viver com você e nós dois arranharíamos paredes na loucura dividida, e faríamos filhos lindos e eu lamberia nossas crias e você minhas feridas. Acho que você até me levaria a Machu Pichu num pulo só, apenas pra ver eu sorrindo, essas gotinhas homeopáticas de felicidade e consciencia de que a vida é o melhor lugar para se estar. Mas babe, o assunto aqui nao é você, o que vc faria por mim eu desconfio porém percebo que entre uma linha e outra estou aqui, nesse texto tão tão chato. Cecília é um nome que não é só um nome entende? Cecília é meu mundo inteiro. Ela é meu ponto de dez miligramas que deixa minha balança equilibrada. Eu estou aqui ainda, com a língua molhada e lambendo, e a fonte nunca seca, minha língua é um mar inteiro salgado...