domingo, 28 de fevereiro de 2010

À obsessão e aos caminhos de despreendimento

Desligar essa chave do interruptor é mais perturbador do que eu imaginava. Afinal estou sozinha nesse apartamento, tomando leite no bico da caixinha. Se desse morte, já teria dado. E ninguém veio até agora, para me ajudar. Não que eu precise de ajuda, mas voce percebe ter algumas coisas repetidas na cabeça, in frames, só quando você se vê num apartamento desarrumado, uma cozinha suja, e sem copos pra tomar seu leite. Um pensamento fixo, pregado com durepox nos miolos, dizendo sempre a mesma coisa. Pra poder explicar de onde começa minha obsessão. Eu tinha 17 e um namorado. Clichê mesmo explicar uma obsessão que envolve algum relacionamento, mas ces´t la vie. E eu tinha esse namorado paranóico. E um dia eu dei um perfume pra ele. E eu usava um, só um. Porque desde cedo eu já sabia das coisas. Ter só um perfume para a maioria das suas lembranças não ser em vão. E foi bem por aí que minha obsessão pelas memórias tomou proporcões desagradáveis. Ele dizia que não queria saber o nome do meu perfume, pra não se apegar em minha imagem quando eu me fosse, pra que eu nao fosse um fantasma perfumado quando houvesse outra, e que eu nao fosse muita coisa, afinal, ele nao queria ter que lidar comigo sendo o futuro passado existente dele, pensando que num futuro alguém exigiria o que ele me exigia naquela hora. E quando eu falo que o tempo é memória implantada pra replicante ver, ninguém acredita. Talvez se minha obsessão fosse mais grave eu teria me tornado sei lá, uma colecionadora de qualquer coisa ou restauradora de obras de arte. Ok,não vou me aprofundar demais nisso, nao é muito importante. Nem pra mim, nem pra você. Continuo sentada aqui tentando meter a mão nesse interruptor e se com um pouco de escuro eu me desapegue desse pensamento repetitivo, que me faz chorar. E uma avaliação de todas as coisas que eu nao deveria ter feito. Toda essa merda de mudar o passado pra reconstruir melhor um futuro. Minha obsessão vai muito além das caixas e dos perfumes que eu ainda guardo. Ela está aqui dentro, de uma forma que nao consigo escapar. De alguma maneira aquela cena é todo um produto pré fabricado do que eu seria. De alguma maneira alguém conseguiu me moldar para o que sou agora. Não pertencer e não virar pensamento de alguém me dói muito. Mas a obsessão nao é essa. É dificil explicar uma coisa que apenas acontece, sem diagnósticos prévios ou certeiros. Mas dói mesmo é essa repetição. Fazer de momentos, frações que durem por muito tempo no meu cérebro. Mas fazer tão exaustivamente que agora me assusta quanta probabiliadade existe de eu estar inventando tudo que esperei guardar, pra não esquecer. E cheirar aquele perfume sem nome no ar, pra tentar lembrar dele. Mas me esquecendo que nem da voz daquela época eu me lembro, talvez dos pés,mas a voz não. E isso torna doentio quando eu me vejo sentada no chão do meu apartamento, fazendo força com os olhos para lembrar porque guardei mesmo essa rolha desse vinho tinto? Não me lembro não me lembro não me lembro não me lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro lembro. Várias garrafas de vinho se formam na minha cabeça, figuras repetidas, e eu conto todas e elas tomam movimentos, e eu fico fazendo uma força para lembrar. E agora preciso do interruptor pra desligar essa luz que me cega, assisto o filme da Piaf e choro como criança em seu orgulho de criança ferido. Não tinha garrafa, nem vinho, nem lugar algum, alguém plantou isso aqui na minha memória, isso nao é meu, se fosse eu teria comigo, aquele perfume que você nao quis saber o nome? Anais anais. Gostaria que estivesse aqui pra saber, talvez tudo seria diferente, e o tempo, não fosse tão importante se apenas deixássemos ele ser e só.

Memórias ainda abafadas num mundo onde as pessoas vivem no máximo por quatro anos.

(a Zhora, que soube desde sempre sangrar entre vidros de vitrines mortas)

Porque não se pode viver muito num mundo onde as corujas são de mentira e as músicas tocam a gente como necrófilos tocam gente morta, mundo onde a melancolia se mistura com a vontade de ser mais, de ser mais alta do que aqueles prédios que sufocam e onde ainda existem pianos e fotos p e b. Mania de querer ser o que valha um cinema noir. Mas não. Sinto que fui desmascarada, correram atrás de mim e eu com essas provas na mão, EU que nem sei dobrar origamis. Mas correram tanto e me perguntaram como eu queria morrer e quanto tempo eu teria. Não foi exatamente o que pensei quando quebrei aqueles vidros num propósito inexato e poético de mostrar a você que eu também sangraria, morreria gota a gota, e que eu não era apenas aquela boneca de plástico que você insistiu em colocar dentro do quarto. E você ficava lá me adorando e imaginando um futuro dramático de fugas em carros conversíveis e vista de terracota. Eu quis provar que eu cairia em câmera lenta torcendo para que você fizesse aquela cara de arrependimento e fosse me resgatar. Mas eu cairia em quadro a quadro só para te fazer ver o tanto que eu estava sofrendo, só para te mostrar que não existe razão para discutir a diferença entre ficção e a vida real, é tudo a mesma coisa. E você veria tanto sentimento, tanta carência que me abraçaria, e toda aquela poesia que a gente foge se tornaria literal, feita de sangue, aquele que refletiu entre vidros e mostrou para você naquele segundo toda a minha existência. Ninguém sabe que está vivendo até que corra o risco de morrer. Seja lá qual for essa morte, eu preferi olhar para você e dizer, eu morri de Amor e de Fé em quem me criou. Porque justificativa de deus é essa centelha luminosa e que vai apagando a cada dia que passa. Mas comigo não, a cada dia que aproximava da morte, eu me sentia mais humano, mais vivo e principalmente mais eterno. Porque você não viu o que eu vi durante essa mísera existência, e é uma puta sacanagem para a narrativa se eu não desse a mínima esperança de que tudo valeu à pena e que ainda não termina aqui, por entre essas lágrimas na chuva. Mas eu repudio esse discurso caquético de que tudo teve um propósito porque aquelas estrelas que eu vi caindo de um céu cinzento não fazia sentido, apenas vibrava. Furei seus olhos Pai para você nunca ver o que fez de mim, essa criatura metade vida metade não-vida, morta de sede, carente até o talo, preguiçosa, fútil, mimada e que solta pombas da paz pelos olhos toda vez que acorda e olha esse sol amarelo-alaranjado, com mais pixels que o sol de verdade, essa esperança escorre e derrete relógios de um tempo fading away. E esse desabafo é uma réplica apenas. Esse papel impresso em letras criadas por uma mente inteligente. O que eu queria mesmo dizer lies with me, e fica por trás desses olhos que cintilam muito, o que eu quero dizer talvez esteja aqui nesse sangue que você está vendo, entre essas minhas vontades de vida e morte. Sangue como aquele lírio que pousa na água e é seu próprio e distinto reflexo (em si mesmo).