segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Adaptaçao.

fico impressionada com a minha capacidade de estar confortável em ambientes inóspitos
Dizem, vira árvore! e eu viro.
Não posso me responsabilizar sempre pela loucura alheia.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quando tentativas não passam de atos falhos.

Igual construir um foguete. Você quer tanto que a primeira tentativa seja a única e você quer tanto mandar aquela máquina para o espaço. E você constrói com tanta seriedade, e chora quando ela fica pronta porque os atos criativos sao mesmo de uma beleza indizível, só quem cria é quem sabe. Por isso que para cada poesia escrita no mundo, um poeta já morto agradece a tentativa. A coisa mais difícil do mundo é encontrar nossas maneiras para a criação não-passiva, para a criação consciente,ela fica lá dançando reprimida e explode. Big-bang do ato criativo.E você lá pronta pra lançar o foguete. A tentativa comove, é tao bonito ver nascendo algo, dar sentido e utilidade para aquilo,ver que você não morreu mas que vai ainda. E nesse meio tempo de esperança vã você constrói as coisas.Primeiro as coisas vêm em caixas com manual de instrução e você as constrói por inércia. Depois fica mais difícil como foi para Edward descobrir que a única coisa que ele podia fazer com as mãos era cortes de cabelo. E logo a tentativa mais longa, a da vida inteira. Você tenta criar algo permanente porque cansa do efêmero,esses tapetes que a gente está sempre tricotando e desfazendo. E talvez eu faça isso mais para você do que para mim. Não vê que eu tento? Mas você prefere a austeridade dos fracos que só estão de pé pela força do orgulho. Se você conseguisse pular do abismo que proponho você me encontraria. E veria a cidade que acabei de criar. E já adianto. Ela é linda.


parte 2


Optamos por esquecer. Tem quem pegue as fotos e as rasguem, tem quem escreva músicas sobre elas e tem a mim que as guarda em caixas no fundo do fundo do fundo do armário da casa da minha mãe. Mas sempre no caminho do esquecimento. Aí alguma cena rotineira dá vida à lembranç.Para alguns um perfume que a garota que sentou do seu lado do ônibus está usando, para outros aquela música que nunca mais tocou no rádio, mas que naquela hora que você mudou de estação ela tocou, para mim o broche que tava escrito "o meu coração é seu". Tacky nao? Mas optmaos por esquecer essas tolices. Optamos pelo Alzheimer consciente, pelo passo rumo ao futuro que parece ser tão promissor.Futuro para alguns é matricular na aula de francês, para outros começar a academia e acreditar na serotonina diária, para mim é confabular metas impossíveis. Que artífício é esse que usamos sempre pra nos proteger da dor maior que é a dor original? Se memória é a cola que nos liga a sentimentos então perdidos e que confortam, funcionam como air bags de colisões mentais que nos levam ao passado,porque então insistimos em esquecer?Porque do brilho eterno?Se somos o que criamos,se eu sou antes de tudo o que vivi, porque essa resistência armada a lembrança? Acho que é porque desconfiamos que o amor é a constante de uma variável que não importa. Esquecer é preciso, já dizia nosso pobre coração viajante de terras desconhecidas. É preciso uma argamassa que consiga fechar certos buracos igual resina de dentista. De prefêrencia a que dure mais. Essas maneiras que encotramos para nao dar valor ao que permanece. Esses sentimentos poucos que gotejam todo dia. A mudançaque propomos,o esquecimento, a superação, tudo isso são artifícios que conflitam com o que é linear e que não acaba. Acho bem incrível essa história de superação. Nossa, você viu a fulaninha lá? Ela superou o fulaninho dela em uma semana.Porque você sabe né? A gente sofre o que se permite sofrer. Wrong answer. A gente sofre o que a gente sofre. Essas colinhas imaginárias que todo mundo usa para escapar da dor original, do amor latente. Ah esses enganos próprios da auto proteção!Percebe que esquecer é só um deles? Esquecimento é tentativa, é outra história que voçê procura para despistar o que nasce primeiro da semente que pulsa dentro de você. Antes de mim era só o amor e se eu vim depois é ele quem permanecerá. Entende? Não adianta acabar comigo porque outras virão, elas e suas colinhas, todo mundo tentando esquecer. Esse mar de memórias daquele amor naufragado,para uns tesouro a ser resgatado, para outros apenas poeira de um tempo que nao volta. Memória nao é o tempo que revivemos na nossa cabeça, memória é apenas conforto para não morrermos de tédio num espaço mínimo de quatro anos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

eu e meu querido Lord

Quando eu era pequena,minha vó tinha essa fazenda, entre martinésia e cruzeiro dos peixotos.Era pertinho da minha casa na cidade. A casa ficava do lado da mangueira e lá debaixo era bem fresco, mesmo quando tava aquele calor de dezembro, nas férias. Acredito que minha mae gostava de me deixar lá na fazenda e voltar pra cidade, afinal era um tempo em que mães nao admitiam que precisavam de um tempo pra elas e avós cumpriam seu papel de avó, que faz quitanda e conta história de assombração pra não deixar a gente dormir nunca mais. A parte mais divertida era comer requeijão derretido com açucar. E se você já foi criança na roça sabe de qual requeijão eu to me referindo. Aquele que a minha avó fazia era melhor que o doce de leite, era melhor que tudo, era melhor até que brincar de argila com meus primos. Eram muitas as coisas que se podia inventar para fazer. Cozinhar flor de laranja no fogãozinho de lenha que tinha sido presente do meu bisavô, construir casinha da arvore (que era uma tabua velha entre dois galhos da mangueira mas que funcionava)e esperar o vovô apartar as vacas para poder andar á cavalo, porque todos os dois cavalos que ele tinha as crianças podiam andar.E os dias passavam devagarzinho, lentos,como se tivesse um tic tac na minha cabeça avisando do almoço, do café da tarde e da janta. Era a noite que tudo acontecia, o medo vinha e eu não sabia me comportar. Era um medo indizível, inaudível e eu nao podia conter a dor que eu sentia, começava na cabeça quando o tic tac do tempo parava e vinha até a barriga que doía, eu queria simular doença, fingir que estava febril para minha avó me salvar, mas ela entendia que o medo chegava mas nao entendia o porque e tentava me colocar quietinha no meu lugar de criança passiva e perdida.
O Lord era um vira lata perdigueiro, pretinho que brincava com a gente de dia e de noite ele uivava. Pra mim não era uivo, era choro, pra mim o Lord chorava de solidão a noite, pra mim compartilhavamos o mesmo medo indizível, era um medo tão profundo e eu juro que eu entendia o meu amigo.E eu chegava pertinho da janela do quarto e abria rápido pra vê-lo deitado logo embaixo e eu olhava bem pra ele e pensava,eu sei, eu sei. E fechava a janela rapidinho porque a luz da lua me obrigava a acreditar no negrinho assombrado que meu avô contava que um dia entrou dentro de casa pra comer o creme de milho que ia virar pamonha. Eu sentia medo do negrinho também, mas não era o mesmo medo. O medo do negrinho era diferente, era um medo distante, esse medo lendário, de conto de fadas pra boi dormir,aquele conto de terror infantil que contavam pra gente com as luzes apagadas e o palito de fósforo aceso na boca pra imitar algum ser de fogo. O medo que eu sentia era de solidão mesmo. E minha avó esperava o espetáculo. Eu gritava e chorava, manhosa de dar dó, mimada de merecer tapa (ela nao entendia o medo). E eu chorando do lado dentro da casa e o lord uivando do lado de fora, era uma orquestra velada de solidão e melancolia que só nos dois entendíamos. Eu só queria o colo com cheiro de hortelã da anestesia de dentista da minha mãe. Lord nunca viu a mãe dele e eu tenho certeza que era isso que ele queria.
Eu gritava
-Vóoooo me leva pra casa, quero minha mãe.
Ela me dizia como se adivinhasse o antídoto da minha agonia, o cerne do meu desespero
-Chama o Lord pra te levar,tudo bem que ele não sabe o caminho direito mas você sabe, você ensina pra ele, tudo bem que ele vai passar por entre os arames farpados e vai se machucar mas você ensina pra ele, quem sabe vocês nao chegam lá?

Eu ia dormir doída, cheia de remorso e culpa. Eu não podia pedir isso ao meu amigo, eu não podia ser tão dramática,logo logo a noite ia acabar e o requeijão ia estar a mesa e tudo voltava ao normal. Eu não podia colocar meu amigo em risco ainda porque eu não saberia como nos proteger. Lord nunca soube das minhas intençoes de procurar ajuda.
Ainda hoje, quando nao sei voltar pra casa ainda penso nele,penso muito nele.Cadê meu choro compartilhado? Deve estar livre por aí, porque já está no céu dos cães e todo mundo sabe que o céu dos cães é mais bonito que dos humanos. Eu estou aqui ainda, presa entre noites em que choro sozinha, medo mesmo é da solidão permanente, aquele cheiro da solidão na fazenda mora em mim até hoje.