sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aquela a quem irritamos

Vir aqui quando o começo é tão clichê é até sacanagem com a narrativa. Vir aqui quando aquela ultima pílula acaba, e onde os choros são escapes hormonais é até covardia. Dias atrás num programa de TV, desses onde as pautas transitam entre “pesquisas comprovam que homens com Q.I mais alto traem menos” e “personagens que incorporamos na vida real”, esses programas de cuca fresca porque são feitos por gente que usa essa expressão “cuca fresca” até hoje. Então sentei com meu café na frente da TV e fui escutar o que aquelas mulheres tinham a dizer, entre elas um homem pra dizer qualquer coisa, ou pra endossar todas as teorias que elas propõem nos 30 minutos daquele sermão afetivo. “Mulheres uni-vos”. E o homenzinho lá e a pauta também: “mentiras que contamos”. Ai que delícia né? Aquilo tudo que você sempre quis ouvir sobre as mentiras que conta, aquelas mentirinhas brancas, no escritório, para o parente, para o conhecido que não lembra o nome. A absolvição sutil e velada... Três pais nossos e uma cervejinha no final de semana e você está pronto pra próxima mentirinha. Pois bem, o homenzinho é questionado, e você Fulaninho? Qual mentira que elas contam? Ele dá um sorriso amarelo, sabe aquela encolhida própria dos que vão ser retalhados pelo discurso? E tão naturalmente ele fala “Olha, de todas que eu tenho que escutar da minha mulher todo dia, a que eu acho que ela mais usa é que está de TPM, TPM passou a ser justificativa pra tudo”. E as mulheres riem para ele, ou dele, não importa. Cada uma deve ter pensado numa maneira requintada para matar o homenzinho. Se não todas, ao menos uma que estivesse realmente na maldita TPM. Eu bem que queria que esse ataque hormonal contra meu pobre útero fosse brincadeirinha sabe, piadinha de mau gosto. Eu bem que queria inventar uma TPM homérica pra fugir daquele compromisso social que sou obrigada a comparecer. Eu queria ter uma TPM todo dia que eu fosse lidar com a sogra, mas daquelas de chorar no ombro dela sabe? E meter medo na coitada, sabe aquelas de tomar sorvete e assistir sex and the city naquele capítulo que a Carrie despede do Mr. Big e chama-o de Hubble? Então, queria um desse... Eu queria poder justificar minhas faltas com TPM também, “ah, amor, me perdoa, estava meio alterada, mas não briga comigo, não me reprime porque estou hoje de TPM”. E terminar o ato com aquele chorinho sentido. Eu realmente queria fazer tudo isso. Mas não dá. Descobrimos a TPM naquele click que temos enquanto já cansamos de divagar “porque estou tão triste se estava tão feliz antes?” Ou “Porque eu quero matar esse que me irrita enquanto ontem mesmo eu fazia sopa pro infeliz curar da gripe” ou ou ou... de repente PUF a resposta vem quase que mediúnica “huumm deixa eu ver na agenda... ih é tpm” Nenhuma mulher simularia isso (se bem que depois de ler essa crônica vai que surgem idéias né? Estrada ruim não acaba mesmo, mulher ruim também não). Então reformulando, mulheres como eu não fazem isso, queria deixar isso claro para você e principalmente para aquele que sabe me irritar nos 7 dias do mês aos quais eu gostaria que ele nem existisse, ou que eu não existisse, ou que se eu existisse estivesse em Nárnia conversando com esquilos falantes, num transe muito psicodélico e paralelo. Mas não. Nesse planetinha onde me encontro cabe só eu e a TPM, quando estou de TPM. Eu caibo no planetinha mas quase que em mim não. É tão triste chorar em desenho animado, precisar comer brigadeiro de panela, ter que brigar porque ele disse que estou feinha, e isso num contexto, numa situação em que realmente eu estava feinha. Mas não. A cartela está acabando e pronto. Sabe a barata do Kafka? Mais ou menos aquilo. Não ouço direito, não vejo direito, nada está bom, minha melhor amiga não me reconhece porque de repente eu a ofendi, ou eu ofendi aquele que me irrita. E o propósito disso aqui, se é que você vai encontrar algum é só pra deixar claro pro homenzinho da TV que nós mulheres normais (as que o titio Nelson gosta) não inventamos essa maldita disfunção hormonal temporária para justificar nossos errinhos, ou surtos, ou ataques. Desculpa, mas sua mulher está mesmo de TPM e ela não é louca. Ou é mas ela continua de TPM. E para aquele que me irrita, eu mando um “oi amor” estou aqui viu, de TPM, um beijo. E mais, quando acaba tudo isso, ele ainda levanta do meu lado de manhã e dá sempre o mesmo bom dia, a diferença é tão simples, em alguns dias do mês isso vai me irritar profundamente, nos outros serão dias azuis. Vou olhar no espelho e vou estar linda. Vou querer usar minha melhor roupa e surpreender aquele que já não me irrita mais, vou querer dar aquela ligadinha de meia hora pra amiga, vou querer ser sexy de novo, vou guardar o sex and the city e ficar as próximas semanas sem comer brigadeiro. Vou ser feliz tudo de novo e sou, outras promessa pra cumprir e eu cumpro, umas surpresas, a rotina, umas loucurinhas, um porre aqui outro ali, estou quase lá, feliz feliz.. epa. Acabou o mês de novo... Vai começar tudo de novo...

Rafaella Biasi que escreveu enquanto tomava a última pílula da cartela.

Um comentário:

dica toturiais disse...

você tem inspiração pra escrever esse artigo tão grande, nossa você é inteligente viu. http://eudesjesuss.blogspot.com.br