quarta-feira, 25 de maio de 2011

Do verbo: falar.

Para Maíra Selva ao som de No Quarter.

Em maio de 98 eu escutei o que você tinha pra me dizer. Você falava sobre Salvador Dali e eu respondia: O perfume? "Não, tolinha, é um pintor surrealista" e você dizia surrealista numa cadência íntima como se fosse esse o argumento pra me convencer da sua inteligência e das coisas que poderia me ensinar. Depois vieram outras coisas, outros diálogos de filmes que se tornaram tão nossos. Nunca esqueço o dia que me mostrou Blade Runner. Confesso que dormi um pouco - era muito complicado ainda entender sobre o teste Voight-Kampf - mas meus olhos acenderam muitas vezes depois, todas as vezes depois. Você dizia muitas coisas não é? Te escutar era um remédio anti-monotonia que eu tomava com carlton vermelho e uns goles de cerveja.Você errava algumas vezes principalmente quando se omitia, num orgulho mútuo besta nós nos perdíamos,em casa ouvindo aquela antiga do Moska. A mesma sempre. E se passou tanto tempo,nossos discursos ficaram tão velhos, precisou dar a eles muletas - e essas passaram a justificar tudo inclusive a ausência - e os discursos lá, sentadinhos debaixo de coqueiros ouvindo Marina Lima num volume tão baixo para não pertubar as palavras que se repetiam. Nosso discurso era nosso amor ali sentado. Sabe? Atos de amor só são atos se tocados várias vezes, como se fossem a mesma faixa de um disco preferido. Em algum carnaval perdido no tempo nos encontramos, para massagear nossas memórias, você falava sobre os clipes tão modernos dos pet shop boys, so fresh in my mind, e eu escutava de novo e tudo voltava como num click, num canal de tv. Você estava ali de novo falando nos meus ouvidos, eu sentada escutando e meu peito era uma jukebox com she's a maniac no talo. Falar assim pode parecer estranho, não é que você tenha ido embora, nada perto deu um abandono, você lê Caio Fernando e um abandono fatal seria demais pra você. You simply vanished away. Que as crises não nos ouçam porque não tratamos nada com elas. Nunca guardamos mágoas, nós só nos perdíamos, era tão fácil voltar. Tão simples dizer agora, você me faz falta. Nosso Almodovar, nosso cheiro de magenta,sua casa fria e as milhares de blusas suas que usei. Mas de alguma forma nos encontramos em outros posteres e grudamos nossas vontades de outros discursos em outros lugares, mais arejados. Eu ainda estou aqui e só pra você saber, blade runner é meu filme predileto.

2 comentários:

Ana Carolina disse...

Depois de ler, só pude sentir: "lindo, lindo, lindo!" Que maneira incrível, à la cadência íntima, de narrar o amor, esse entranhar mútuo, generoso e sincero, que impregna de coragem e verdade aqueles olhares frenéticos buscando a todo momento não só um flash de intensa efêmera felicidade, mas também um lugar de alívio e aconchego, de repouso e cumplicidade... Isso e tanto mais eu (ou)vi ao longo dessa história de mais de uma década, encantada com doses deliciosas de muita música boa, imagens dissonantes, technicolor, poesia, carnaval e vendaval... Um brinde à sua narrativa e um brinde à amizade de vocês...

Selva Selva! disse...

A vida é tão engraçada, pra não dizer estranha... eu aqui sentindo que há uma desídia, que sou eu quem sempre estou bezuntando nosso amor e penso que nem sempre as pessoas estão se preocupando como eu... aí, reclamo pra alguém que você just don´t care, não dá as caras, as vozes, nada...
Peço notícias ontem, no limite de quase querer ofender, colocar umas vírgulas, uns pontos... e chego hoje e vejo que não há resposta. Mas passeio pelo blog, que há muito não preencho e vejo um post seu “recente”...
Rafaella... por que a gente chora só por dentro e não por fora? Por que sentir esse pedaço de carne sem pele, se a gente podia estar numa colcha de matelassê bem quentinha? Você me falta, você me falta. E não são só as memórias que me faltam, mas você mesma, você de hoje, você que busco, que quero saber onde está e que me dá medo de pensar que não sei quem é...
Ainda escuto rain song e sempre te encontro... também sinto o frio daquela casa, como uma desculpa pra me aconchegar, querer estar e penso que a casa do Saraiva também era fria... ou era só nossa avidez?
Quero que a gente realize o que a gente é, o que sobrou, o que virá... as lembranças são lindas, mas quero lembrá-las com você, de carne e osso...
Te amo.
Te espero.