quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A mulher Zelig

Deve ter algo me irritando ultimamente porque olha, só algo muito irritante para me trazer de volta. Ainda que em passos muito lentos e desequilibrados, então me perdoem a parcimônia.
Você entra no restaurante japonês, aliás acho restaurante japonês o máximo, existe todo o mito de tranquilidade e paciência nesses lugares. Parece que te cobram o silêncio e o barulho dos hashis. E você lá, entra naquela de imitar o outro do seu lado a comer silenciosamente, mastigar devagar, tomar saquê, "olha amor, acho que quando o saquê transborda significa boa sorte", mas acho que nem deve ser isso, deve ser erro de cálculo mesmo porque japoneses não são muito de exageros e desperdícios. Mas você entra naquela onda mística, crua e incorpora a filosofia. E vão existir muitos outros esquemas para entrar, muitas outras vidas, discussões e bares. Sempre entrando e saindo de universos em que precisa-se um pouco de transmutação, viver outros mundos paralelos, tirar fotografia do que se viveu e voltar pra casa de nós mesmas. Calmamente. Mas aí você pega o totem na mão e volta de novo no mesmo sonho, no mesmo restaurante japonês,e faz tudo conforme o figurino kabuki e máscara. Aí algo acontece e você sai de lá meio esquisita. O outro que vai contigo, o outro das bordas e trans-bordamentos volta com você dessa, sempre agindo normalmente, livre de qualquer sentido torto que possa ter te arrastado pra lá. Ele está livre, não é dele a paranóia. É sua. E a única coisa pra te lembrar da realidade é esse totem na sua mão: esse lenço que sua mãe te deu quando você era pequena pra te lembrar a assoar o nariz quando a rinite atacasse. Só isso pra te consolar, garota. E você aí, esquecida de tudo e de todos, bancando a tola a imitar padrões criados por você mesma, uma arquiteta tosca, Niemeyer wannabe, querendo montar casas suspensas. Nem uma curva pra te provocar vertigem, "the kick" pra te trazer de volta. E você passa por outras pessoas fazendo tudo exatamente como elas,o jeito de lutar, o jeito de andar,o jeito de ler, o jeito de amar, o jeito de embrulhar os presentes. Porque você precisa se camuflar, as realidades são como os anticorpos atrás do vírus da insensatez e loucura. Então você fica parada, fingindo de morta para que não te encontrem e descubram quão humana,frágil e impotente você pode ser atrás desse portão irreal que arquitetou. E aquele outro que te acompanha sabe mas finge que não é com ele porque te tem por perto,meio maluca, mas tem. Porque você vai endossar todos seus passos, vai pegar no hashi quando voltar ao japonês de novo igual a ele, vai sentar no bar e discutir filme francês igual ele discute, você vai se camuflando e não é essa maneira cool woodyaliana em que disfarçar-se de alguém significa subverter,imitar o outro significa ridicularizá-lo, como os mímicos franceses fazem. Não. Você precisa ser Zelig para sobreviver ao mundo que criou, você precisa acordar mas perdeu seu amuleto que te garante o regresso. E nem seus pensamentos mais são só seus porque você precisa cuidar com que eles não escapem para continuar promovendo a paz do lugar que arquitetou, para não balançar, para você não cair, para você não encontrar o reflexo daquela que um dia já foi, insustentavelmente humana.

3 comentários:

Iva Tai disse...

uau!

Selva Selva! disse...

por isso, gosto de restaurante japonês,mas daquele bem barulhentos, onde como com a mão, por falta de paciência...

Abraão Sousa disse...

Ola bom dia,
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