quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Intervenções literárias.

É que daí sempre que leio algo que promove uma ruptura em mim, qualquer ruptura que permite o ato criativo, aí eu crio em cima daquilo que eu acabei lendo. Essa pequena intervenção é de um livro que tô lendo agora, devagar e sempre porque além do que é um livro difícil e eu tenho que aprender a ler sozinha. 


"A lua, passiva tecelã do destino". A alma com suas vertigens de luz e sombra. a alma que puxa e entrega. Que lança e recolhe esse fio indomável que é a Vida. Sintomas de dor e amor, de preguiça e atenção. Distraídos andamos para alcançar o final, uma ruptura tão sutil, porque o final também é o começo.
Intervenções do cotidiano literário.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Primeiro ato - vir a ser

Muito antes das histórias de nascer e morrer existe o círculo da vida. E é assim que nasce um mito. A indelével herança do ser demasiado humano. É a partir desse nascimento que eu começarei essa nova narrativa. Antes de nascer do corpo, a palavra precisa nascer da alma, da alma de sua artesã. Vamos fraudar juntos algum sentido por aqui, vamos costurar o cotidiano em ficção de nós mesmos. Vou costurar o meu coração no da palavra e sair por aí entregando pra quem quiser ler. Está nascendo. Nasceu.


 Parte I

 Muito antes de haver o nome, havia a dança. E o pé não era um pé, era um batuque involuntário e não havia pausa, havia pulso e transe. Depois ficamos mais sofisticados e aprendemos a falar. Mas ainda não havia a mãe e não havia a letra. Havia o rabisco, a imagem e de novo o transe. Havia o impulso e depois o fogo. Ainda não sabemos o que veio primeiro, o impulso ou o fogo. Ou o fogo dentro forjando metais. Depois houve o anel. Forjamos o anel, redondo e vazio. O anel que termina o eu onde o outro começa. Aprendemos então a falar mãe. Aprendemos a falar mãe para poder lembrar da dança porque esquecemos da dança e do transe. E depois de tanto falar começamos a medir, medir números para encontrar a medida perfeita do que é feito o anel. Medimos o tempo e medimos a alma. Vinte e um gramas a medida da alma. Então precisamos relativizar a medida, a média da alma. E criamos o claro e o escuro. Inventamos termômetros, para medir o fogo dentro que não mais forjava metais, talvez a música. Talvez forjamos a música para lembrar que o pé antes não tinha nome. E elegemos os mais fortes para cuidar de nós. Elegemos heróis,jornadas e mortes invencíveis. Nunca o tédio. E coroamos tantos de nós com outros anéis que eram só a réplica do anel Original que nos trouxe até aqui. E coroamos suas cabeças com flores, dentes-de-leão e espinhos. Coroamos com estrelas também. Mas esse foi outro tempo. 

 Agora o espelho do anel está aí pra todo mundo ver. Em prédios, em ipês, em moedas, em encontros velados. Buscamos algo muito antigo, muito antes da palavra. Pensamos como seria algo muito escondido e secreto e começamos a fraudar alguns nomes, pensamos em paixões proibidas dentro de caixas, pensamos em amores platônicos submersos, anti-monotonias que inventamos para atravessar o vazio. E por fim aprendemos a ser, não a ser para O anel, mas a ser para os outros. Para existir além das nossas fronteiras e margens. E andamos por muitos lugares, imitamos os heróis que elegemos para nos proteger. Nos protegemos também e inventamos curativos para muitas feridas, nos curamos mas também morremos. 

 Ainda nos perdemos para nos encontrar em outros olhares, ou nos perdemos para vivermos em busca do eu que não vamos encontrar. E talvez isso não importe. Porque ainda há rabiscos, muitos feitos em areias na beira do mar. Nomes, corações diluídos no sal e na água. E tateamos esses significados porque buscamos o transe antigo, aquele que o pé batia na terra e a gente ria, uns dos outros na tentativa de compreender o invisível. Demos nomes ao invisível e hoje, apesar dos cortes profundos procuramos ferozmente o ritmo. E lá dentro onde forjamos espaços e cordas, num lago muito profundo podemos talvez nos ligar a mãe, ao fogo e a dança. E enfim, ao transe. Mas o que sempre fizemos e vamos continuar a fazer por mero fetiche e distração é criar as fraudes, essas pontes que dão sentido nesse espaço entre o eu e entre o outro. E são tantos os nomes e tantos os ritmos. O meu ritmo é o verbo em busca do ato primeiro.É essa dança louca que a palavra faz quando se distrai e sai escrita. E por fim, lida. Nascer é circunstancial.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Espasmos

Não devemos dar as costas para o que viemos fazer aqui. Nunca em minha vida inteira de auto-sabotagens eu me propus uma ferida tão larga,tão espessa como a de ficar sem isso aqui. A cama vazia doeria menos perto de um papel em branco. A imagem que tenho é de mim, cortando minha língua com a tesoura, eu meio Almodôvar naquela foto. Cortei minha língua pra não conseguir mais conversar comigo. Isso tem nome: auto-flagelo. Agora compreendo Marquês de Sade enlouquecido e preso, escrevendo em tinta-sangue o que explodia em sua cabeça. Eu sou aquele tecido feito de tinta-sangue. Está tudo aqui dentro, falta virar do avesso essa roupa e colocar a mostra. Jogar nesse palco. Meu coração pára. Mas acho que é um espasmo rapidinho mas ele existe e por existir lhe dei um nome, esse espasmo é um sorriso. Um sorriso-pêndulo balançando um diamante de um lado para o outro. É esse ouro que preciso resgatar, é esse o meu elixir, a minha moeda de troca. Quero de volta meu ofício. Quero poder balançar junto com esse diamante tão pequeno ainda, frágilzinho.Quero esgarçar esse tecido até que lhe sobrem os remendos. Quero lavar em água química até que lhe doa a forma. Quero costurar, fio a fio na medida que vai se formando qualquer imagem. Quero de volta essas imagens brocadas, quero de volta esse tecido, mas até mais que o tecido, quero de volta a tinta que deixei secar. O sangue que deixei num potinho com a pena do lado e que coagulou. Será que se eu diluir em água ele transforma? Porque preciso dele novo, bem novo. Eu ainda escrevo aqui porque o espasmo não deixa sequer eu propor outro espaço por enquanto. Mas pretendo reformá-lo. Pintar as paredes, talvez fazer uns desenhos bonitos, elegantes. Um quadrinho da Frida Kahlo talvez. O que acham? Mais uma última coisa, pra deixar claro, a Hemorragia não existe mais. Ela virou estrela, uma estrela macunaímica Está bonita lá no céu. É só olhar. Vou até dar um nome pra ela depois, virou constelação. O que tento aqui é o parto de outra coisa, outro nome. Não nasceu, está a vir a ser. Está ainda dentro do coração do Sol e vai ser entregue a qualquer momento. Celebremos, por favor. As contrações já vão começar.