quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Espasmos

Não devemos dar as costas para o que viemos fazer aqui. Nunca em minha vida inteira de auto-sabotagens eu me propus uma ferida tão larga,tão espessa como a de ficar sem isso aqui. A cama vazia doeria menos perto de um papel em branco. A imagem que tenho é de mim, cortando minha língua com a tesoura, eu meio Almodôvar naquela foto. Cortei minha língua pra não conseguir mais conversar comigo. Isso tem nome: auto-flagelo. Agora compreendo Marquês de Sade enlouquecido e preso, escrevendo em tinta-sangue o que explodia em sua cabeça. Eu sou aquele tecido feito de tinta-sangue. Está tudo aqui dentro, falta virar do avesso essa roupa e colocar a mostra. Jogar nesse palco. Meu coração pára. Mas acho que é um espasmo rapidinho mas ele existe e por existir lhe dei um nome, esse espasmo é um sorriso. Um sorriso-pêndulo balançando um diamante de um lado para o outro. É esse ouro que preciso resgatar, é esse o meu elixir, a minha moeda de troca. Quero de volta meu ofício. Quero poder balançar junto com esse diamante tão pequeno ainda, frágilzinho.Quero esgarçar esse tecido até que lhe sobrem os remendos. Quero lavar em água química até que lhe doa a forma. Quero costurar, fio a fio na medida que vai se formando qualquer imagem. Quero de volta essas imagens brocadas, quero de volta esse tecido, mas até mais que o tecido, quero de volta a tinta que deixei secar. O sangue que deixei num potinho com a pena do lado e que coagulou. Será que se eu diluir em água ele transforma? Porque preciso dele novo, bem novo. Eu ainda escrevo aqui porque o espasmo não deixa sequer eu propor outro espaço por enquanto. Mas pretendo reformá-lo. Pintar as paredes, talvez fazer uns desenhos bonitos, elegantes. Um quadrinho da Frida Kahlo talvez. O que acham? Mais uma última coisa, pra deixar claro, a Hemorragia não existe mais. Ela virou estrela, uma estrela macunaímica Está bonita lá no céu. É só olhar. Vou até dar um nome pra ela depois, virou constelação. O que tento aqui é o parto de outra coisa, outro nome. Não nasceu, está a vir a ser. Está ainda dentro do coração do Sol e vai ser entregue a qualquer momento. Celebremos, por favor. As contrações já vão começar.

Um comentário:

Maíra Selva disse...

o sangue pisado nunca volta a circular, nao volta vivo nunca. por que não abrir uma outra ferida?