terça-feira, 27 de novembro de 2012

Primeiro ato - vir a ser

Muito antes das histórias de nascer e morrer existe o círculo da vida. E é assim que nasce um mito. A indelével herança do ser demasiado humano. É a partir desse nascimento que eu começarei essa nova narrativa. Antes de nascer do corpo, a palavra precisa nascer da alma, da alma de sua artesã. Vamos fraudar juntos algum sentido por aqui, vamos costurar o cotidiano em ficção de nós mesmos. Vou costurar o meu coração no da palavra e sair por aí entregando pra quem quiser ler. Está nascendo. Nasceu.


 Parte I

 Muito antes de haver o nome, havia a dança. E o pé não era um pé, era um batuque involuntário e não havia pausa, havia pulso e transe. Depois ficamos mais sofisticados e aprendemos a falar. Mas ainda não havia a mãe e não havia a letra. Havia o rabisco, a imagem e de novo o transe. Havia o impulso e depois o fogo. Ainda não sabemos o que veio primeiro, o impulso ou o fogo. Ou o fogo dentro forjando metais. Depois houve o anel. Forjamos o anel, redondo e vazio. O anel que termina o eu onde o outro começa. Aprendemos então a falar mãe. Aprendemos a falar mãe para poder lembrar da dança porque esquecemos da dança e do transe. E depois de tanto falar começamos a medir, medir números para encontrar a medida perfeita do que é feito o anel. Medimos o tempo e medimos a alma. Vinte e um gramas a medida da alma. Então precisamos relativizar a medida, a média da alma. E criamos o claro e o escuro. Inventamos termômetros, para medir o fogo dentro que não mais forjava metais, talvez a música. Talvez forjamos a música para lembrar que o pé antes não tinha nome. E elegemos os mais fortes para cuidar de nós. Elegemos heróis,jornadas e mortes invencíveis. Nunca o tédio. E coroamos tantos de nós com outros anéis que eram só a réplica do anel Original que nos trouxe até aqui. E coroamos suas cabeças com flores, dentes-de-leão e espinhos. Coroamos com estrelas também. Mas esse foi outro tempo. 

 Agora o espelho do anel está aí pra todo mundo ver. Em prédios, em ipês, em moedas, em encontros velados. Buscamos algo muito antigo, muito antes da palavra. Pensamos como seria algo muito escondido e secreto e começamos a fraudar alguns nomes, pensamos em paixões proibidas dentro de caixas, pensamos em amores platônicos submersos, anti-monotonias que inventamos para atravessar o vazio. E por fim aprendemos a ser, não a ser para O anel, mas a ser para os outros. Para existir além das nossas fronteiras e margens. E andamos por muitos lugares, imitamos os heróis que elegemos para nos proteger. Nos protegemos também e inventamos curativos para muitas feridas, nos curamos mas também morremos. 

 Ainda nos perdemos para nos encontrar em outros olhares, ou nos perdemos para vivermos em busca do eu que não vamos encontrar. E talvez isso não importe. Porque ainda há rabiscos, muitos feitos em areias na beira do mar. Nomes, corações diluídos no sal e na água. E tateamos esses significados porque buscamos o transe antigo, aquele que o pé batia na terra e a gente ria, uns dos outros na tentativa de compreender o invisível. Demos nomes ao invisível e hoje, apesar dos cortes profundos procuramos ferozmente o ritmo. E lá dentro onde forjamos espaços e cordas, num lago muito profundo podemos talvez nos ligar a mãe, ao fogo e a dança. E enfim, ao transe. Mas o que sempre fizemos e vamos continuar a fazer por mero fetiche e distração é criar as fraudes, essas pontes que dão sentido nesse espaço entre o eu e entre o outro. E são tantos os nomes e tantos os ritmos. O meu ritmo é o verbo em busca do ato primeiro.É essa dança louca que a palavra faz quando se distrai e sai escrita. E por fim, lida. Nascer é circunstancial.

Um comentário:

dica toturiais disse...

oi me chamo joao, eu estava passado e parei pra ler seu blog e gostei, parabéns.
http://eudesjesuss.blogspot.com